O fim do país seguro não foi um erro — foi uma decisão
Os debates sobre imigração, habitação, Segurança Social, pressão sobre os serviços públicos ou convergência económica parecem, à primeira vista, temas separados. Não são. São partes da mesma transformação: Portugal deixou de acreditar que consegue preservar aquilo que, durante décadas, o distinguiu de muitos dos seus parceiros europeus — segurança, tranquilidade e previsibilidade no quotidiano.
A grande mudança dos últimos anos não é apenas a discussão sobre criminalidade. É a perda da perceção de segurança num país cuja marca internacional era precisamente essa: ser seguro. E essa é, provavelmente, a evolução política mais relevante do nosso tempo.
Há um conceito da sociologia que ajuda a explicar porque é que isto pesa tanto mais do que uma simples estatística de crimes. Anthony Giddens chamava-lhe “segurança ontológica”: a confiança básica, quase invisível no dia a dia, de que o mundo à nossa volta é estável e previsível o suficiente para se viver nele sem uma vigilância constante. Não é uma sensação que se meça facilmente em inquéritos, mas é ela que permite a uma sociedade funcionar sem ansiedade permanente. Quando essa confiança se rompe, não é preciso que os números da criminalidade disparem — basta que os cidadãos deixem de acreditar que o Estado consegue garantir aquilo que antes davam por garantido. É isso, mais do que qualquer estatística isolada, que parece ter mudado em Portugal.
Durante anos, Portugal foi apresentado como o contraponto europeu aos problemas que se acumulavam noutros países. Enquanto França discutia motins urbanos, a Bélgica enfrentava a radicalização e a criminalidade organizada, a Suécia via crescer a violência associada a gangues e a Alemanha transformava imigração e segurança em temas centrais da vida política, Portugal era vendido como a exceção: um país estável, tranquilo, coeso, onde ainda se podia andar na rua sem a ansiedade que já marcava o quotidiano de muitas cidades europeias — sem grandes subúrbios associados à violência, sem a perceção de que o Estado tinha perdido controlo sobre o seu território ou sobre fenómenos sociais que deixara crescer durante demasiado tempo.
Hoje o debate mudou. E quando o debate muda desta forma, é normalmente porque a........
