Por que é que Marcelo falhou de forma tão espectacular?
Os magos da política portuguesa, deste regime e do anterior, sempre fizeram fila para admirar Marcelo deitado nas palhinhas, tratando-o como uma espécie de profecia encarnada. Em Janeiro de 1974 — ou seja, para registar o óbvio, antes do 25 de Abril — o na altura famoso colunista Artur Portela Filho escreveu um artigo inteiramente dedicado a Marcelo com o título “O babygrow político”. O texto sublinhava que o jovem Rebelo de Sousa estava, desde sempre, “talhado, calibrado, destinado”: “Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.” A desenvoltura de Marcelo entre as elites era lendária: “Quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam com um olhar terno”. Da direita à esquerda, a classe política inteira admirava nele “o riso fácil”, “a voz estaladamente metálica”, “a inteligência extravasante” e “o brilho incontrolado”. Mesmo naquela altura, quando um regime estava a acabar e outro ia nascer, Marcelo conseguia aparecer em todo o lado ao mesmo tempo e com a mesma genialidade. Artur Portela Filho espantava-se: “Só ele se move. Só ele existe. Só ele manobra.”
De facto, Marcelo era tão omnipresente há tantos anos na vida pública que, em 1976, a mítica editora Snu Abecassis convenceu-o a escrever um livro de memórias. É........
