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Um cão é um cão é um cão

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19.10.2026

Ovídio legou-nos o infeliz destino de Actéon. Deambulando pela floresta, quis o destino conduzi-lo a uma gruta, onde a desnudada deusa Diana se banhava nas cristalinas águas filtradas pelo bosque. Nem as Ninfas conseguiram interpor-se entre Diana e o olhar de Actéon. Feroz ou justa, a deusa, desrespeitada na sua castidade, transformou-o num velho veado com um simples salpico de água.

Actéon foge, dando-se conta da sua nova inexplicável velocidade… viu-se reflectido nas águas: um deslumbrante foçinho e enormes hastes… quis gritar mas da sua boca apenas desesperados bramidos saíam… Sem saber o que fazer, nem para onde ir ou a quem recorrer, ouviu os cães da sua matilha, que o avistam e atacam.

Corre por onde antes perseguia as peças de caça… foge dos cães que antes incitava a caçar… implora aos cães da sua matilha que nem o seu olhar reconhecem. “Pêlo Negro” (Melanquetes), “Matador de Feras” (Terodamante) e “Criado nos Montes” (Oresítrofo), são os primeiros a alcançá-lo.

Depressa a matilha se apodera da presa. Dezenas de cães dilaceram a peça de caça… afinal o dono, transmutado em cervídeo. Actéon não queria estar ali, mas quereria.

Diana vingou-se ou fez justiça à sua castidade? As opiniões dividem-se. Como hoje se dividem na tarefa de gerir a população dos nossos melhores amigos.

Devemos reconhecer aos cães um estatuto de inviolabilidade que os salvaguardem de constrangimentos que limitem a sua população? Mesmo admitindo programas de controlo, baseados na esterilização, que parecem não impedir que, todos os dias, novos elementos se juntem à matilha?

Ou devemos encarar os cães, não apenas pelo estatuto jurídico que lhes outorgámos, mas também pela responsabilidade que detemos pela sua criação e reprodução?

Não existe qualquer equívoco, somos devedores da responsabilidade de cuidar individualmente os cães à nossa guarda e credores dos nossos pares que atentam contra esse dever das mais diversas formas, por vezes até, em nome desse alegado dever.

A espaços, o país é confrontado com a sua exagerada população de cães. É como uma pedra no sapato cujo incómodo toleramos para não ter de parar. Habituamo-nos ao desconforto e adiamos o alívio. Volta não volta, o nosso sossego é interrompido e aquela pedra no sapato volta a ser tema.

Melhor, as espaços, o nosso melhor amigo brinda-nos com uma mordedura. “Crava-nos os dentes” porque deixou de se rever em nós. Suportamos porque é o nosso melhor amigo, dele não pudemos fugir.

A Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) chamou recentemente a atenção para a questão da “detenção responsável e controlo populacional”, como parte de um........

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