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O ginásio dos neurónios

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12.09.2026

Trabalho com sistemas de informação há mais de quatro décadas. Vi chegar o computador pessoal, a folha de cálculo, a internet, o ERP, o smartphone. Cada um trouxe o mesmo coro de profetas: uns anunciavam o paraíso, outros o apocalipse. Nunca chegou nenhum dos dois.

Mas a inteligência artificial generativa tem uma diferença que me inquieta — e não é a que ocupa os debates televisivos.

A pergunta habitual, “será a IA o fim da inteligência humana?”, parte de uma premissa errada: a de que são duas inteligências do mesmo tipo, em competição. Não são. A IA é, na sua essência, um motor estatístico de padrões, treinado sobre aquilo que os humanos já produziram — e que hoje recombina, sintetiza e produz com uma competência que, em tarefas específicas, já ultrapassa a nossa.

Mas competência numa tarefa não é o mesmo que responsabilidade por uma decisão. A máquina não tem intenção, não assina, não acorda às três da manhã preocupada com as consequências.

O risco real não é a máquina substituir a inteligência humana. É os humanos deixarem de a exercer.

E é precisamente isso que parece estar a acontecer, à escala, onde mais dói: na escola.

Os números falam alto. No Reino Unido, o inquérito anual do Higher Education Policy Institute traça uma trajetória vertiginosa: os estudantes universitários que usam IA passaram de 66% em 2024 para 92% em 2025 e 95% em 2026 — e 94% admitem usá-la em trabalho avaliado. Três anos, da novidade à quase universalidade.

Em Portugal, segundo o INE, mais de oito em cada dez estudantes já utilizam estas ferramentas — mais do dobro da população geral.

Na Universidade de Reading, investigadores submeteram às cegas 33 respostas de exame geradas integralmente por IA: os docentes detetaram uma. As restantes receberam, em média, notas acima das dos alunos reais.

E na Universidade de Brown, um professor de Economia que, pela primeira vez em vinte anos, permitiu um exame feito em casa viu a turma quase triplicar de inscritos, atraída pela facilidade. As notas dessa prova foram excelentes; as do exame presencial que se seguiu, com os mesmos alunos, desabaram.

Estes números não provam, por si sós, uma degradação da inteligência de uma geração. Mas provam uma coisa: já não sabemos o que estamos a avaliar.

Convém ser justo: nem todo o uso de IA é fuga ao esforço. Muitos estudantes usam-na para explicar conceitos, resumir artigos,........

© Observador