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Lume brando

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31.08.2026

Há dois Portugais, e não são a esquerda e a direita, nem o litoral e o interior, nem o público e o privado. São o país que está ao lume e o país que regula o fogão. E a fronteira entre os dois raramente se atravessa.

O país ao lume acorda cedo. São os milhões que enchem os comboios da linha de Sintra e os IC intransitáveis, que abrem as fábricas, os armazéns, as urgências, as escolas, os balcões, os campos e as cozinhas. São enfermeiras que seguram um SNS a que faltam médicos, professores que seguram uma escola a que falta tudo, técnicos que mantêm a funcionar os sistemas que ninguém vê — a luz, a água, os pagamentos, os impostos, os salários dos outros. São os emigrantes que enviam para cá o que fazem lá fora e os imigrantes que fazem cá o que as contas da Segurança Social já não escondem: sem eles, as pensões pagavam-se pior.

Este país ferve em lume brando desde sempre, e a temperatura está calibrada com precisão de engenheiro. Quente o suficiente para extrair tudo: o trabalho de um português médio entrega à Segurança Social 11% descontados diretamente do salário e mais 23,75% suportados pela entidade empregadora — 34,75% do custo do trabalho, sem qualquer teto, porque para contribuir nunca houve limite [Código Contributivo]. Numa carreira de 40 anos ao salário médio de 2025 (1.694€ brutos [INE]), são mais de 300 mil euros entregues ao sistema previdencial só por um trabalhador. A isto soma-se o IRS retido antes de o salário chegar à conta, o IVA em cada compra, o IMI da casa, mais de metade de cada depósito de combustível em impostos. Falha um pagamento e a máquina acorda em dias — penhora, coima, juros, execução fiscal automática. Para o país ao lume, a consequência é instantânea.

Mas nunca quente ao ponto de ferver. Quando pediram sacrifícios, fê-los: cortes, sobretaxas, congelamentos, uma década de salários parados. A bancarrota de 2011 pagou-a este país e saiu dela em três anos, com uma disciplina que envergonharia os credores, se os credores se envergonhassem. E depois voltou ao lume, a aguentar. É essa a função do fogo lento: cozinhar sem que a panela transborde.

Em troca, este país espera — e a espera está medida. Um processo em tribunal português demora, estimadamente, 792 dias na primeira instância e mais 836 na segunda, o quinto pior registo da União Europeia [Comissão Europeia, EU Justice Scoreboard 2023]. Nos tribunais........

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