1789 não nos tornou livres
Por muito tempo, ouvi e deparei-me com uma ideia que nunca oferecia sem grande resistência intelectual: a Revolução Francesa foi o nascimento inevitável da democracia contemporânea. Celebrações cegas e simplificações, sobre tudo isto, construiu-se um mito político confortável que transforma 1789 numa origem sacralizada da liberdade. O problema não é apenas histórico, mas também conceptual. Ao confundir a ideia de liberalismo com rutura revolucionária, criou-se uma narrativa que glorificou a destruição institucional enquanto ignora os custos sociais, morais e políticos que a própria rutura produziu. Não se nega a democracia, mas não a podemos tratar como se fosse produto de um momento revolucionário absoluto.
A democracia contemporânea não nasceu subitamente da rutura. Processos evolutivos anteriores, reformista e limitativos quanto à ação do poder político. Edmund Burke rapidamente percebeu isto com uma franca clareza que é desconfortável ainda hoje para os seus críticos. A sua defesa do reformismo gradual das instituições era uma ideia consciente de que destruir instituições em nome de princípios abstratos raramente irá trazer liberdade duradoura. A política não começa do zero, e a história não é um erro a corrigir através de decretos ideológicos.
A Revolução em França confundiu emancipação com rutura absoluta. Ao proclamar direitos universais desligados da tradição e memória histórica, substituiu liberdades concretas por princípios teóricos abstratos, alguns necessários obviamente, outros........
