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Saudades de Cabo Verde

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06.07.2026

1 Segui como toda a gente a admirável performance dos jogadores cabo-verdianos nos relvados do Mundial. Como toda a gente, rendi-me, suei, gritei, sofri e muito me comovi no jogo contra a Argentina. Mas – e agora talvez já não como toda a gente – vi cada jogo como se estivesse em Cabo Verde ao lado de amigos que lá deixei, das recordações que trouxe, das memórias que guardo. Tao impressivas na sua transparência, tanto tempo depois. Como se o filme dessas idas e vindas estivesse sempre a passar em pano de fundo, no decorrer de cada jogo.

Lembrei- me muito de tudo isso por estes dias.

2 De abençoada situação geográfica, a meio do oceano Atlântico, não foi senão a sua natureza avara de dons que lá forjou uma forma de sobrevivência. E lá formou um povo. Lutador, determinado, mas aberto ao mundo na sua doçura musical e modos amenos. Crescido na dificuldade e amadurecido na obstinação foram sempre andando e quase sempre, com acerto e critério. Após meio século independência (ocorrida em Julho de 1975) Cabo Verde pode considerado como exemplar –- e não tenhamos medo das palavras.

Grande povo, magnificas elites.

3 Pátria de gente culta e cultivada, gente de visão, dona de raciocínio bem estruturado e discurso ágil, Cabo Verde possui uma classe politica digna de exportação, como se faz com os bons vinhos. Mulheres e homens preparados, desenvoltos, civilizados, sem medo do mundo e das suas novas e impiedosas regras. É certo que o país vigora ainda a ritmo moderado, que há duas velocidades no desenvolvimento, mas basta ouvir a elite cabo-verdiana, conversar com políticos ou académicos ,homens de ciência ou gente das artes, para perceber como há entre eles e a cultura, eles e a civilização, um elo indissociável. De que as mornas são (o melhor?) exemplo. Música feita de tantas mestiçagens – e expressão maior do carácter mestiço que é a própria raiz de Cabo Verde – e que uma Cesária Évora tão bem representou.

4 Percebi porém tudo isto, ainda antes da independência – esta forma de ser, o ancestral hábito dos combates desiguais – da natureza, á politica, passando pela pobreza; o português que falavam, a importância da escola, dos livros, da musica, dos poetas e da sua poesia – quando um dia, antes de Abril de 74 ,aterrei na ilha do Sal. Viajava com um pequeno grupo de mergulhadores amadores que passavam os seus dias nos fundos daquele mar turquesa enquanto cá em cima eu deambulava por uma ilha semi-deserta e ia fazendo perguntas. E de cada vez que havia um grande jogo de futebol em Portugal, um derby ou um final de taça, a ilha –todas as ilhas – paravam. A maioria era do Benfica, a mim pareceu-me sempre........

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