menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Páscoas

44 0
01.04.2026

1 Depois da dúvida, a perplexidade, a surpresa e uma admiração comovida, é que caí em mim. Mas primeiro foi preciso abrir todo este leque de “estados de alma” para chegar à Mafalda e sim, constatar que “se” pode ser assim. Tendo desde sempre como segunda morada uma cadeira de rodas e não tendo nem um metro de altura, ser tão solar, enérgica, útil, divertida, interessante, interessada – e realizadíssima. Conheci-a há muitos anos num evento onde eram “distinguidas” algumas mulheres e ela era umas delas. Havia muita gente, ruído, desatenção, discursos, conversas cruzadas, passou. Mas ela não. A imagem durou até hoje: solidez, fluidez discursiva, sorriso aberto, desenvoltura. E a segurança de uma estrela.

Percebi estar diante de um absoluto caso, o caso ficou comigo, ela perdi-a de vista. De longe a longe, uma notícia, pouca coisa para a dimensão do que é capaz a vontade humana.

Chama-se Mafalda Ribeiro, tem pouco mais  de 40 anos e mandou-me um mail há dias a pedir a morada, ”queria mandar um presente” . O presente era um livro escrito por ela – “Gotas no Charco” – com prefácio de José Tolentino de Mendonça (edição da Have a Nice Day), e o primeiro agradecimento reza assim: “a Deus que é fonte de todas as minhas gotas”.

Voltei a cair em mim mas desta vez não foi de borla, isto é, a Mafalda não podia ser “património” exclusivo de um encontro e de uma troca de mensagens, havia uma responsabilidade. A que existe quando se percebe estar diante de alguém totalmente improvável e inteiramente desarmante na sua qualidade humana. Embora hoje com alguma actividade pública, parecia-me obrigatório dá-la a conhecer ainda melhor, contá-la ainda mais. Levando-a pela mão até essa plateia sempre misteriosa que são os “leitores” (existirão?) para não nos distrairmos – repito – quanto........

© Observador