O fatal desencontro
1 Não durou muito, alguns meses, nem me era uma realidade desconhecida, mas ter lidado directamente com ela foi como estar em dois planetas ao mesmo tempo ou viver duas vidas em simultâneo. Numa, na vida “de todos os dias”, existe um país encavado em si mesmo, sem “anima”, motor e talvez sem conserto. Na outra – no mesmo mundo, no mesmo hemisfério, na mesma língua – há ambição, invenção, resultados, dinheiro. Em relevo.
Na primeira – brevíssimo resumo – anda-se às costas com uma lei laboral cujo arrasto pastoso começou por fazer dela um atamanco e hoje um instrumento sem serventia. Observa-se uma actividade governamental que mexe — quem nega? – mas não avança – quem nega? À vista desarmada, Luís Montenegro tem vencido todos os debates no hemiciclo – enorme talento parlamentar, jogo de cintura, resposta prontíssima, assertividade, ênfase, humor. Impossível negar. O Primeiro Ministro porém, e apesar de uma indiscutível resiliência – a sua melhor qualidade –, não tem ganho o governo: a política anda-lhe sumida. Não o vemos “ocupá-la” em cheio, cuidar politicamente as grandes causas e coisas. Como se coubesse exclusivamente aos ministros o todo e o tudo das respectivas pastas. Não cabe: o maestro é que – interpretando a importância e a relevância das obras – rege os seus músicos, escolhendo qual a ressonância, o tom, o ritmo para os diversos andamentos da partitura. Não se julga ser o caso (de resto, onde........
