Adeus Nuno
1 Não deixava ninguém indiferente, não passou incólume pela vida, era intenso, difícil, verdadeiro, brilhante. Dava-se por Nuno Morais Sarmento. Inspirava. Combatia. Resistia.
Nunca soube se era mais resistente que desconcertante, se o contrário. As duas coisas de certeza mas agora já não tem importância, o Nuno partiu sem nos avisar, como fazem os que nos desconcertam mas que amamos sem condições. De certo modo tínhamos ancorado nele para sempre, coabitando com a sua invulgaríssima forma de vida, o brilho da inteligência, o imenso talento político, a lucidez sem ilusão, a capacidade de “ler” o ser humano. O feitio era trabalhoso, porventura aquilo a que que o comum dos mortais chamaria de “caprichoso”, mas nós eramos devotos. Sabendo bem que não havia “caprichos”, havia sim uma desritmada forma de vida que nunca pareceu embaraçá-lo, na mesmíssima proporção em que nos afligia.
Falo no plural por haver uma estreita e já antiga ligação entre um especial grupo – na verdade eram dois – de amigos do Nuno onde me incluía e de quem me lembro agora, a cada palavra que escrevo. Encontros que podiam ser em qualquer sítio, começavam à roda de uma mesa de jantar, no sofá de uma sala, num terraço, com o imutável e invariável atraso que era a sua assinatura mas a espera, longa, seria porém redimida pelo interesse e a inteligência política – a dele ia sempre à nossa frente – com que tingia as nossas conversas, debates, combates, acertos e desacertos.
Ah e havia o humor. Sim: fininho, agudo, divertido. Rimos tanto e tantas vezes juntos e sabe Deus como o riso em comum ata laços........
