O espetro que realmente paira sobre o aborto
No artigo publicado no Observador a 19 de julho de 2026, Sara Barros Leitão anuncia o seu monólogo Nós, sozinhas, que estreará em Setembro em Braga e percorrerá o país. Nele, a autora descreve o aborto como um “direito” ameaçado por um “espectro de ameaça” que “teima em pairar”, vindo sobretudo de governos de direita e de extrema-direita. Apresenta o aborto como uma questão central e de classe para as mulheres, um “fantasma” que paira sobre a sexualidade feminina desde a menarca ou o início da vida sexual, impedindo a “autonomia plena”. Critica as barreiras de acesso (objectores de consciência e regiões sem médicos) e defende o alargamento de prazos e a sua “externalização” para fora dos hospitais.
É uma narrativa activista típica: o “espectro” é sempre externo (a direita, a Igreja, a sociedade “patriarcal”), nunca a consciência moral, a realidade biológica ou o sofrimento das mulheres que abortam. Como cristã e defensora da vida, questiono frontalmente esta visão.
Mais do que uma expressão artística, esta forte carga ideológica levanta um claro duplo critério regulatório em Portugal. Recentemente, a ERC abriu processos contraordenacionais a canais de televisão por transmitirem o vídeo “Obrigado, Mãe!”, promovido por Miguel Milhão, alegando que se passava uma mensagem política sob a forma de publicidade comercial. Contudo, perante uma peça de teatro que vai circular pelas salas do país a propagar o aborto a pedido, a defender o alargamento de prazos e a replicar a agenda dos partidos de esquerda, não existe qualquer entidade que fiscalize ou aplique multas. Isto levanta uma contradição legítima: promover estas causas através dos palcos e do financiamento cultural não é, também, fazer política?
Como se pode chamar ‘direito humano’ ao acto de tirar a vida a um ser humano indefeso?
Desde a fecundação que existe um novo ser humano: com um ADN único e distinto do da mãe, um organismo vivo da espécie Homo sapiens, em desenvolvimento contínuo. Não é um “agregado de células” nem um “pedaço de tecido” — é um........
