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Será que estamos todos enganados?

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01.10.2026

Uma vez por mês vou a um pequeno salão de cabeleireiro e estética, gerido por nepaleses, em Lisboa, para fazer as unhas. Já lá fui à hora do almoço, ao fim da tarde, depois do trabalho, e ao sábado. E adquiri um pequeno hábito enquanto espero: contar clientes. Nunca contei menos de dez pessoas atendidas durante a hora em que lá estou.

Não é um estudo científico. Não é uma amostra representativa. É apenas uma observação repetida, em dias e horários diferentes, que me começou a levantar uma pergunta muito simples: quanto fatura um negócio destes?

Façamos uma conta grosseira. Se cada cliente deixar, em média, 10 euros e houver dez clientes por hora, estamos a falar de 100 euros por hora. O salão abre aproximadamente das 10h às 20h: dez horas por dia, 1.000 euros por dia, 6.000 euros por semana, se abrir de segunda-feira a sábado. Se aquele ritmo se mantivesse ao longo das dez horas de abertura — uma hipótese, não um dado observado —, estaríamos a falar de cerca de 1.000 euros por dia, 6.000 por semana e perto de 26.000 euros num mês médio.

Naturalmente, faturação não é rendimento. Há rendas, salários, Segurança Social, eletricidade, água, produtos, equipamentos, impostos, seguros, contabilidade, perdas e risco empresarial. Mas continuo a sair de lá com a mesma pergunta: será que estamos todos enganados?

Durante décadas, ensinámos às classes médias uma determinada ideia de sucesso: estudar, entrar numa boa universidade, fazer uma licenciatura, talvez um mestrado, aprender línguas, conseguir um emprego qualificado, entrar num escritório às nove, sair às seis — quando se consegue sair às seis —, receber um salário ao fim do mês e progredir lentamente.

É o caminho socialmente reconhecido. E continua, naturalmente, a ser um bom caminho para muitas pessoas. O problema começa quando comparamos aquilo que foi prometido com aquilo que muitos jovens encontram quando chegam ao mercado de trabalho.

Um jovem economista, arquiteto, advogado ou engenheiro pode passar cinco anos na universidade e iniciar a vida profissional a receber pouco mais de mil euros. Por vezes menos. Pode trabalhar nove ou dez horas por dia, levar trabalho para casa, responder a emails à noite e passar duas horas em transportes. E pode descobrir, aos 28 ou 30 anos, que, apesar de ter feito tudo aquilo que lhe disseram ser necessário para integrar a classe média, continua sem conseguir pagar sozinho uma renda em Lisboa.

Entretanto, entra num pequeno salão e vê dez clientes numa hora. É difícil não fazer contas.

Continuamos também a atribuir estatutos sociais muito diferentes às profissões. Dizer que alguém é advogado, economista, arquiteto ou engenheiro continua a produzir uma determinada imagem. Dizer que alguém tem um salão de unhas, uma barbearia, uma pequena loja, uma lavandaria ou um restaurante produz outra. Mas o mercado não remunera títulos académicos. Remunera procura, escassez, organização e capacidade de criar um serviço pelo qual alguém esteja disposto a pagar.

Com o tempo percebi que o proprietário não gere apenas aquele espaço. Segundo me foi explicado, tem cinco estabelecimentos relativamente próximos entre si, entre o Areeiro, a Avenida de Roma e Almirante Reis. E é aqui que a história começa a ficar mais interessante.

O telefone do chefe toca constantemente.........

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