Carreiras académicas: o sistema que alimenta a rivalidade
As universidades públicas portuguesas pedem, e bem, colaboração. Pedem partilha de laboratórios, coorientação de estudantes, construção de projetos de longo prazo, criação de massa crítica. Depois fazem passar as carreiras por um sistema que incentiva o contrário: rivalidade interna, pânico de escassez e silêncio estratégico.
Esta não é uma história de vilões individuais. É uma consequência previsível de um desenho institucional disfuncional.
Há uma intuição antiga, conhecida na biologia e em qualquer organização que dependa de cooperação: a competição dentro do grupo tem custos especiais, porque corrói a coesão que o sustenta. Quando a competição se vira para dentro, o coletivo enfraquece por dentro e, inevitavelmente, por fora. E uma universidade vive da capacidade de departamentos e centros competirem “lá fora” por estudantes, financiamento e reputação. Quando essa energia é gasta a competir internamente por degraus escassos, a instituição paga duas vezes: perde confiança e perde desempenho.
O problema estrutural é simples de descrever: confundimos contratação com progressão.
No sistema público português, a “promoção” é tratada, na prática, como mais um processo de contratação. Abre-se um concurso para uma categoria superior e candidatos internos e externos competem como se a instituição estivesse a recrutar: os primeiros mais uma vez, os segundos pela primeira vez. Como se gere uma universidade com este nível de incerteza de custos? Quando se lança um concurso, vai-se promover alguém (um aumento marginal de despesa) ou contratar alguém novo (um compromisso salarial completo)? É aqui que os orçamentos se tornam planos de contingência, quando não exercícios imaginários O planeamento orçamental torna-se precário. Há gestão de risco por cenários e, muitas vezes, por improviso.
Este estado de coisas tem custos internos e externos. Dentro da universidade, os departamentos vão-se fechando sobre si mesmos e o ambiente torna-se tenso e defensivo. A estrutura de incentivos empurra cada pessoa para a autopreservação: o meu colega é, na prática, o maior obstáculo à minha progressão. O resultado é previsível: diminui a vontade de partilhar informação e oportunidades. Cresce a tentação de trabalhar em silêncio. É um jogo de soma zero: se eu........
