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O recreio de São Bento

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15.03.2026

Quem nasceu na viragem para a década de oitenta e cresceu nos pátios das escolas sabe que o recreio era uma selva de cimento com código penal próprio e zero supervisão das Nações Unidas. As alcunhas não tinham filtros, não passavam pelo crivo dos recursos humanos, nem respeitavam qualquer cartilha do politicamente correcto. A fisionomia de um miúdo ditava a sentença. Eras o “Gordo”, o “Quatro Olhos”, o “Amarelo”, ou o “Cenoura”. O teu nome de baptismo desaparecia no primeiro dia de aulas. Sobrevivemos a isso com os joelhos esfolados no alcatrão, a disputar penáltis imaginários e a jogar à bola com dois paralelos a fazer de baliza.

Felizmente, crescemos. Evoluímos nas palavras, mas relativizamos a escuta. A mesma geração que sobreviveu àquelas alcunhas brutais veste-se hoje de fato e senta-se no Parlamento a gerir o país. E o que fizeram? Substituíram a frontalidade rude da infância pela cobardia refinada do “aparte”. O pátio mudou-se para dentro da Assembleia da República, agora com ar condicionado e subsídio de deslocação.

Para governar este “pátio”, láá na frente, sentado à secretária principal, temos o professor frustrado e os seus estagiários igualmente desesperados, que são o Presidente da Assembleia da República e os seus Vice-Presidentes essa direção de turma em burnout permanente. Passam as sessões a ligar e desligar microfones, a suplicar por uma ordem que nunca chega. Se estivessem verdadeiramente no ensino público a lidar com uma turma destas, já teriam metido baixa médica por esgotamento nervoso ou estariam estrategicamente afetos a um sindicato qualquer, apenas para não terem de lidar com esta falta de educação diária.

Vejamos então a dinâmica desta turma indisciplinada.

Sempre que o recém-eleito Presidente da Associação de Estudantes, Luís Montenegro, se levanta com o seu restrito grupo para tentar apresentar o seu programa para a escola, o fundo da sala entra em ebulição. A seu lado, irrequieto, está Leitão Amaro, o clássico cromo da rádio da escola. Anda sempre de microfone na mão, a tentar fazer os anúncios do recreio a uma velocidade estonteante, embrulhando as novidades para ver se a malta adere, mas o barulho de fundo quase nunca o deixa brilhar e, quando........

© Observador