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O Invisível, o Discreto, e o show-off

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09.03.2026

A anatomia de uma crise em Portugal segue sempre o mesmo guião. Seja uma pandemia, os incêndios florestais ou as cheias que atingem a zona Centro, cada tragédia revela o que o país tenta ignorar. Quando o país real treme, percebe-se rapidamente que a resposta da sociedade se distribui por três níveis distintos de actuação diametralmente opostos, num bailado trágico entre o invisível, o discreto e o puro exibicionismo. É nesta tríade que se joga a salvação e a condenação do nosso país.

O Invisível e a humildade do hábito

Muito antes de as sirenes tocarem, há um exército sem armas que opera nas sombras da nossa sociedade. O primeiro pilar de Portugal é invisível por opção e por natureza, alicerçado nas Instituições Particulares de Solidariedade Social, nas Misericórdias e nos centros paroquiais. Nestas casas, o papel da Igreja Católica não é um conceito teológico abstrato, mas a prática diária da humildade absoluta. São funcionários, voluntários e religiosos que dão banho aos idosos esquecidos, servem a sopa à família vitimada pelo desemprego e acolhem a criança do bairro periférico. Fazem-no abdicando de qualquer vaidade, esticando orçamentos de miséria e cobrindo as falhas de um Estado que lhes delega o trabalho pesado e lhes regateia o justo financiamento. A sua acção é estrutural e proactiva. Não esperam pelas câmaras de televisão nem pelas conferências de imprensa. Mais importante do que estarem lá antes da tempestade, são os únicos que lá continuam muito depois de a poeira assentar. Quando todos vão embora, são eles que ficam nas cinzas, na lama ou no rescaldo económico, a reconstruir vidas despedaçadas, pagos de forma vil, mas guiados por uma missão que não tira folgas.

O Discreto e a eficácia do camuflado

Quando a prevenção não chega e o caos agudo se instala, Portugal recorre ao seu segundo pilar, accionando o verdadeiro botão de pânico do Estado com a chamada das Forças Armadas. Os militares representam a eficácia discreta. A sua entrada num teatro de operações não traz apenas maquinaria pesada, traz uma cultura de disciplina, hierarquia e rigor técnico de que o país civil carece dolorosamente. Foi assim na pandemia com o Almirante Gouveia e Melo, que substituiu a pequena política por uma logística de guerra e vacinou o país. O padrão repete-se na engenharia militar que desobstrui vias de forma cirúrgica após as intempéries, ou na organização táctica e assertiva no combate inicial aos grandes incêndios. Onde há improviso, o militar impõe a ordem. Não procuram a objectiva da câmara, não fazem directos nas redes sociais nem convocam os jornalistas para lavar roupa suja institucional. Cumprem o seu dever com estoicismo, estancam a hemorragia, repõem a normalidade e, terminada a missão, recolhem discretamente aos quartéis com o sentimento de dever cumprido.

O Show-off e a vaidade do colete

No meio do trabalho estrutural de quem veste o hábito e da missão cirúrgica de quem veste o camuflado, sobra a terceira força, que não previne nem resolve e, muitas vezes, apenas faz ruído. Trata-se da política do espetáculo. Em vez de uma governação com a gravidade que as crises exigem, assistimos a líderes e autarcas que vivem para o soundbite. Envergam apressadamente o colete de operações da Protecção Civil, mascarando uma gritante impreparação técnica com fotografias com filtros nas redes sociais a apontar para o horizonte ou a mostrar um camião ou um trator a trabalhar. Confundem acção com agitação. Dificilmente sabem liderar no caos.

A inépcia deste show-off evelou-se claramente em episódios recentes. O instinto teatral não tem limites, bastando lembrar o sismo de uma madrugada em agosto de 2024. Não caíram prédios, não houve vítimas e o evento não teve consequências de maior. Contudo, na manhã seguinte, uma procissão de governantes correu para os microfones para elogiar a excelente prontidão da Proteção Civil. O Estado autoelogiou-se sobre uma tragédia que não aconteceu, num exercício de pura vaidade para disfarçar a sua inépcia crónica em planear e prevenir. A mesma sede de protagonismo repetiu-se, de forma ainda mais deprimente, no rescaldo directo das recentes intempéries no Centro. A presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, e o ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, ofereceram ao país um momento de alta tensão pública. A autarca acusou o ministro de dar prioridade aos jornalistas em vez de ouvir os locais. Horas depois, o espectáculo encerrou-se com um abraço mediático e o ministro a declarar perdoar como bom cristão. É a classe política a disputar a precedência televisiva.

Toda esta cultura de encenação desagua num problema letal consubstanciado na total falta de coordenação na resposta às crises, fruto da ausência de uma liderança única, forte e preparada. No pico da aflição, o país assiste a uma desarticulação gritante entre os diversos actores e a falhas amadoras na comunicação. As recentes intempéries foram o mostruário trágico dessa realidade. Vimos ministros, como Leitão Amaro, revelarem-se exímios a gravar vídeos ocos para consumo nas redes sociais, enquanto a ministra com a tutela operacional deambulava pelo cenário desorientada como uma barata tonta, no exacto momento em que as populações e as forças no terreno imploravam por assertividade e segurança. A imagem de grande parte do Governo na gestão de catástrofes é a de um barco à deriva, comandado por quem sabe muito de marketing e pouco de sobrevivência.

A justa e rara excepção a este marasmo de inépcia governativa foi dada pelo ministro Miguel Pinto Luz. Por contraponto direto à desorientação gritante da Administração Interna, Pinto Luz adotou a única linguagem que interessa numa crise, a dos resultados. Perante o colapso provocado na A1, abdicou do teatro e do lamento, liderando uma reação de prontidão e trabalho no terreno que devolveu a normalidade à principal artéria do país em tempo recorde. Foi uma demonstração política de que a melhor e mais eficaz comunicação de crise é, afinal, a obra feita.

A Esperança e o país real

O país real sobrevive, não por causa do Estado exibicionista, mas apesar dele. Sobrevive porque se ampara na economia social, nas Forças Armadas e na raríssima competência de um ou outro político que prefere a acção à pose. Perante este cenário, resta-nos uma esperança profundamente cristã na sua essência, de conversão e redenção. A esperança de que um dia a nossa classe política, habituada às luzes da ribalta e à superficialidade do poder, seja capaz de olhar para os lados e aprender com quem serve abnegadamente a Nação. Que assimilem, por fim, a humildade e o amor incondicional ao próximo das instituições da Igreja e do sector social, e que incorporem o rigor, o silêncio e o sentido de dever das nossas Forças Armadas. Até que esse dia de lucidez chegue, continuaremos entregues aos políticos de fotografia, falhos de comando, e salvos, à última hora, pelo rigor dos discretos e pelo amor dos invisíveis.

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