Turquia: o Novo Irão de Netanyahu
A cimeira da NATO que arranca hoje em Ancara chega num momento em que a aliança precisa, acima de tudo, de projetar uma imagem de coesão que há muito lhe escapa. A guerra na Ucrânia, apesar de já decorrer há mais de quatro anos, continua num grau de intensidade que parece apenas aumentar mês após mês. Ainda assim, ambas as partes têm-se revelado mais recetivas à ideia de um eventual cessar-fogo ou acordo de paz, o que coloca sobre a mesa a necessidade de uma posição comum entre a liderança europeia e a NATO, uma vez que qualquer negociação séria terá forçosamente de passar tanto por Bruxelas como por Washington. A este imperativo soma-se um segundo, porventura mais estrutural. A NATO atravessa, desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, um processo de reinvenção acelerado devido à relutância americana em reafirmar os seus compromissos. Esta nova realidade forçou os europeus a suportar uma quota maior da defesa do continente enquanto simultaneamente revelou a importância que a Turquia tem para a segurança do continente. É por isto que a escolha de Ancara para acolher esta cimeira é, em si mesma, a consagração do percurso de Erdogan em direção ao centro do sistema atlântico. Percurso esse que é hoje inseparável daquela que se tornou a mais consequente das suas rivalidades regionais: a que o opõe a Israel.
A Turquia foi, durante a maior parte do século XX, um dos aliados mais firmes do campo ocidental. Entrou no Conselho da Europa em 1949, aderiu à NATO em 1952, assinou um acordo de associação com a Comunidade Económica Europeia em 1963 e procura, desde 1987, a adesão à UE. Foi igualmente o primeiro país de maioria muçulmana a reconhecer Israel, em 1949, sendo o seu parceiro regional mais valioso até aos anos 90. Mas essa tendência inverteu-se a partir de 2002, com a eleição do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) de Erdogan, um partido de raízes islamistas que desde então dominou a política turca. Foi essa matriz ideológica que ditou o afastamento de Israel, tendo o AKP acolhido a Irmandade Muçulmana depois de Mohammed Morsi ser afastado do poder no Egito pelo golpe de Abdel Fattah El-Sisi e mantido ligações significativas com o Hamas, ligações que se tornaram insustentáveis para a relação bilateral depois dos ataques de 7 de outubro e da resposta israelita em Gaza. Mas seria um erro tratar o afastamento de Israel e o afastamento do Ocidente como um mesmo movimento, porque enquanto o primeiro foi essencialmente linear a partir de 2002, o segundo foi feito de ruturas e reconciliações.
Nos primeiros tempos, com efeito, Erdogan parecia querer distanciar-se do Ocidente. O episódio mais consequente deu-se em 2015 quando a Turquia abateu um caça russo junto à fronteira, no contexto da guerra civil na Síria. A resposta de Moscovo foi imediata e, perante ameaças de uma retaliação militar, Ancara pediu aos aliados que cancelassem a retirada planeada de baterias Patriot do país, pedido que não foi acolhido pelos seus aliados ocidentais. O que poderia ter sido o catalisador de uma rutura entre Ancara e a Rússia tornou-se, paradoxalmente, o motor de uma aproximação a Moscovo, porque a perceção de que a NATO não estaria ao lado da Turquia nos momentos de vulnerabilidade levou Erdogan a reparar as pontes com Putin.
O golpe falhado de julho de 2016 aprofundou essa perceção. Putin foi o primeiro........
