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O Paradoxo do Iraque

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tuesday

A semana que passou ofereceu, em dois momentos separados, a ilustração mais nítida do paradoxo em que o Iraque se encontra. Primeiro, as cerimónias fúnebres de Ali Khamenei estenderam-se ao seu próprio território, com procissões e homenagens que atravessaram as cidades santas do xiismo iraquiano. Depois, nesta segunda-feira, o primeiro-ministro iraquiano Ali al-Zaidi aterrou em Washington para se encontrar com Donald Trump, na sua primeira visita oficial ao estrangeiro desde que tomou posse. Entre a liturgia da fidelidade a Teerão e o gesto político dirigido à Casa Branca, o que estes dias revelaram é que a guerra no Irão, longe de consolidar a posição iraniana no Iraque, aprofundou a fratura entre os dois países e que Baghdad dispõe hoje de uma margem de manobra que não conhecia há duas décadas para definir um rumo que não seja ditado pelo vizinho.

O simbolismo do funeral de Khamenei não deve ser subestimado. O Iraque alberga a segunda maior população xiita do mundo, cerca de 60% a 65% dos seus habitantes, o que corresponde a perto de vinte milhões de pessoas, e é casa de duas das cidades mais sagradas do islão xiita: Kerbala, onde o Imam Hussein, neto do profeta Maomé e terceiro Imam xiita, foi martirizado com a sua família pelas forças do califa omíada Yazid I, e Najaf, onde repousa Ali ibn Abi Talib, o primeiro Imam xiita. A passagem do corpo de Khamenei por estes lugares inscreve a sua morte numa longa linhagem de líderes religiosos martirizados, cimentando a autoridade espiritual do líder mesmo depois da morte.

Mas o gesto serviu igualmente um propósito geopolítico evidente. Com o receber das principais figuras da liderança iraniana (o primeiro-ministro Ali al-Zaidi decretou mesmo feriado nacional na passada quarta-feira) e milhares de fiéis nas ruas, Teerão pôde encenar o reforço da sua influência cultural e política na região, contrariando a imagem, particularmente aguda desde a guerra com os EUA, de um regime mais isolado do que nunca. A encenação, porém, parece ter durado pouco. Menos de uma semana depois, al-Zaidi apresentou-se esta segunda-feira em Washington, num movimento cuidadosamente desenhado para sinalizar a disponibilidade do novo governo, que tomou posse em maio na sequência das eleições realizadas em novembro, para procurar laços mais estreitos com os Estados Unidos e garantir parcerias e investimentos de longo prazo. Por mais que o regime iraniano se tenha esforçado por fazer crer o contrário, a verdade é que a guerra tornou evidente a fissura entre Baghdad e Teerão.

A relação entre os dois países sempre oscilou. Nos anos 80, a guerra Irão-Iraque matou centenas de milhares de pessoas (com algumas estimativas a colocarem o número de vitimas acima de um milhão), e, apesar de ambos partilharem a mesma fé, os líderes religiosos de cada país competem........

© Observador