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Mais César que Cristo

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28.04.2026

Quando JD Vance decidiu, nestas últimas semanas, repreender publicamente o Papa Leão XIV (o primeiro Papa da Ordem de Santo Agostinho) pelas suas críticas à ofensiva americana no Irão, invocando para o efeito a doutrina católica da guerra justa (que tem em Santo Agostinho o seu principal arquiteto), ofereceu ao mundo uma cena reveladora do momento político que vivemos. Um vice-presidente americano convertido ao catolicismo, a corrigir o homem cuja função institucional é precisamente ser o intérprete dessa tradição. Pior, terá escapado por inteiro a JD Vance a ironia de procurar ensinar Santo Agostinho a um agostiniano. A imagem é absurda, mas o absurdo não está apenas na arrogância individual de Vance. O que neste episódio se revelou foi a estrutura profunda da relação que esta administração americana mantém com o cristianismo. Uma relação na qual a religião é convocada mas não consultada e, sobretudo, é instrumento mas nunca limite.

Esta é, talvez, a marca mais distintiva do trumpismo na sua segunda encarnação e a que mais o separa daquilo que, na própria tradição política americana, sempre foi um modo muito próprio de habitar a linguagem religiosa. A invocação de Deus e do divino nunca foi estranha à vida política nos EUA. Está nos discursos de muitos dos pais fundadores, faz-se sentir desde as intervenções abolicionistas de Lincoln às reivindicações de Martin Luther King, e sobrevive até hoje na despedida característica dos Presidentes, o “God bless America”. Mas em todos os casos esta era uma religiosidade privada compatível com o pluralismo confessional que os fundadores quiseram preservar, e respeitadora, no essencial, da divisão entre o que é de César e o que é de Deus.

O que os fundadores defenderam de forma consistente foi que a religião deve permanecer separada do exercício do poder institucional. James Madison escreveu que a religião e o governo existirão com maior pureza quanto menos estiverem misturados. Alexis de Tocqueville, observando a América algumas décadas depois, percebeu que era precisamente essa separação que tornava a religião um chão partilhado pela sociedade e um horizonte moral comum, não um instrumento de controlo ou domínio. Numa palavra, a sabedoria fundadora expressa esta ideia fulcral de que a religião se corrompe quando o Estado a abraça, e que o Estado se corrompe quando a religião o governa.

Trump, Vance e Hegseth rompem com essa tradição. O seu vocabulário é expressamente teológico e, por vezes, francamente........

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