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Intervencionismo como entretenimento

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17.03.2026

“You will not have a war with me” foi uma das mensagens preferidas de Donald Trump durante a campanha de 2024, repetida até à exaustão, dirigida a um eleitorado cansado das intervenções sem fim no Médio Oriente. A escolha de JD Vance como vice-presidente reforçou esta narrativa — Vance que dissera explicitamente que uma guerra com o Irão seria contra os interesses americanos. O GOP parecia finalmente ter-se remodelado, passando de neoconservador para genuinamente isolacionista, ou pelo menos para mais cínico e seletivo nas suas aventuras militares.

Contudo, passado pouco mais de um ano de mandato, essa promessa foi quebrada de forma espetacular. A administração Trump interveio na Venezuela, Nigéria, Somália, Iémen, Iraque e Síria, bombardeou embarcações no mar das Caraíbas e lançou uma guerra de larga escala contra o Irão. Ainda assim, apesar desta inversão completa das promessas de campanha, o universo MAGA mantém o seu apoio inabalável. Trump goza de uma taxa de aprovação à volta dos 80% entre republicanos na sua guerra no Irão, enquanto a vasta maioria de democratas e independentes a desaprova. O eleitorado que o elegeu precisamente para evitar estas guerras é agora apoiante entusiástico. Este paradoxo  (prometer paz, fazer guerra, ser recompensado por isso) diz muito sobre a natureza do movimento que Trump construiu. E é precisamente esta característica, que até agora o tem protegido de contradições, que pode revelar-se simultaneamente a sua maior vulnerabilidade e o início de uma transformação profunda na relação entre os Estados Unidos e Israel.

Compreender porque é que o eleitorado MAGA apoia estas guerras, apesar de contradizerem frontalmente as promessas que o elegeram, exige olhar para três dinâmicas distintas.

A primeira razão para este aparente paradoxo reside na natureza das intervenções que Trump escolhe fazer. Ao contrário das guerras prolongadas do Iraque e Afeganistão que saturaram o eleitorado americano, Trump especializou-se em operações rápidas, cinemáticas, de alto impacto visual e benefícios imediatos facilmente comunicáveis. O foco não é transformação estrutural de longo prazo ou nation-building. O foco é o espetáculo, é a projeção seletiva de poder americano, imagens que parecem saídas de videojogos e que fazem o público sentir que está a assistir a um filme onde os americanos inevitavelmente saem por cima. A Venezuela foi o exemplo paradigmático desta abordagem. Antes da captura de Maduro, pouco mais de metade dos republicanos apoiava uma operação militar. Após as imagens espetaculares da operação, esse número disparou para próximo dos 80%. Trump conseguiu compreender algo fundamental: a sua base, mais do que genuinamente isolacionista, é avessa a envolvimentos prolongados e inconclusivos.........

© Observador