Gen-Z e a Revolta das Baratas
O Cockroach Janta Party (CJP) começou como uma sátira. Quando o presidente do Supremo indiano comparou em maio os jovens desempregados a baratas, a geração visada apropriou-se do insulto e transformou-o em bandeira: em poucos dias, milhares de jovens indianos manifestaram-se nas ruas, e o movimento, lançado por Abhijeet Dipke nas plataformas digitais, alcançou mais de 25 milhões de seguidores no Instagram. Sem se chegar a registar como partido, e sem a estrutura hierárquica da política tradicional, o CJP conseguiu a demissão de Dharmendra Pradhan, ministro da Educação, no passado dia 25. E foi esse desfecho que tornou difícil continuar a ler os protestos juvenis que hoje atravessam meio mundo como episódios isolados de descontentamento nacional. É que o que se passou em Deli parece apenas a manifestação mais recente de um padrão que já derrubou governos no Nepal, no Bangladesh e em Madagáscar, e que convém compreender a partir daquilo que verdadeiramente o anima.
A geração que protagoniza estes movimentos define-se mais pela adesão a causas concretas do que por uma filiação ideológica ou partidária clássica. O desencanto com o establishment afastou os jovens, não apenas dos partidos clássicos, mas das próprias grelhas ideológicas de tamanho único que durante décadas organizaram a política. Dizer isto não é dizer que as estruturas ideológicas e dialéticas do passado se tenham tornado absolutamente obsoletas. Bastaria olhar para as sondagens norte-americanas e para a subida sustentada do apoio ao socialismo entre os mais novos para concluir que o apoio a velhas ideologias está em crescendo nas gerações mais jovens. Mas, na verdade, o que estes números nos mostram é a procura da via mais próxima para fazer avançar uma causa sentida, estando o crescente apoio a partidos ou movimentos mais próximos da esquerda radical na Europa e nos Estados Unidos correlacionado com causas específicas como a guerra em Gaza. O apoio jovem parece então não se ancorar numa subscrição clara a um programa ideológico, tratando-se antes de uma espécie de recompensa dada aos partidos que são vistos como o veículo mais imediato de defesa de uma causa. Assim, mesmo onde os números aparentam engajamento ideológico, é a política de causas que continua latente.
E é esta política de causas que explica a forma como os chamados protestos Gen-Z se têm desenrolado por todo o mundo. Nascem quase sempre de um único acontecimento ou de um único vídeo que condensa, à maneira de um meme, o conjunto difuso de problemas contra os quais os jovens se insurgem: as fugas de informação nos exames de admissão na Índia, as imagens da opulência das famílias da classe política no Nepal, por exemplo, e propagam-se com uma velocidade que só as redes sociais permitem, escalando para uma mobilização de massas em meros dias.
Convém, porém, resistir à tentação de tratar todos estes movimentos como um bloco. Os jovens não são um monólito, e os seus protestos também não o são. Cada país inscreve nas suas ruas uma dinâmica nacional própria que o separa dos demais. É, por isso, importante manter em mente que, apesar de a cobertura mediática muitas vezes realçar o denominador comum, a idade, e esbater as especificidades de cada movimento, cada um........
