Espaço socialista vs. espaço não-socialista?
Findada a primeira volta, foi logo na noite eleitoral de domingo passado que os candidatos apurados para a segunda volta começaram a revelar o argumentário que utilizarão nas próximas semanas. Seguro apresentou a escolha como sendo entre moderação e radicalismo. Ventura, por sua vez, quis representar a escolha como sendo entre o espaço socialista e o espaço não-socialista. A diferença não é um pormenor. Se a direita moderada votar com Seguro por afinidade com a moderação, Seguro ganhará. Se a direita moderada votar em Ventura porque é de direita (o tal espaço não-socialista), então a vitória será de Ventura.
Já aqui escrevi que o sistema político português, desde as últimas legislativas, se estava a reconfigurar para um espaço tripolar, dividido em três blocos de tamanho semelhante: esquerda, centro-direita, e direita radical (ou pós-liberal). Esta divisão conceptual não é um mero devaneio meu. A tripolaridade é um conceito usado para descrever mudanças em vários sistemas multipartidários europeus, muito antes de o partido de Ventura ter representação parlamentar em Portugal.
No sistema bipolar a que estávamos habituados, centro-esquerda e centro-direita dominam o sistema e ficam muito acima dos restantes partidos. Num sistema tripolar, estes dois polos perdem peso relativo. Um terceiro polo – a direita radical – ganha força eleitoral e aproxima-se dos dois polos tradicionais. Como nenhum partido domina e os três polos divergem em muita coisa, as alianças políticas oscilam. A política deixa de caber numa só dimensão; e a instabilidade do sistema vem precisamente da sua tripolaridade.
Se a divisão fundamental fosse apenas entre esquerda e direita, seria expectável que Luís Montenegro não estivesse a governar com maiorias variáveis há quase dois anos, ora com o apoio do PS, ora com o Chega, consoante o tema em questão. Se o espaço fosse verdadeiramente bipolar sem necessidade de distinções adicionais, Montenegro........
