A cegueira voluntária
1 A questão foi debatida na Assembleia da República (AR) em 2019. Já não é a primeira vez que falo nela. Trata-se da equiparação do fascismo ao comunismo enquanto regimes totalitários atentatórios dos direitos fundamentais e da dignidade humana. Espero que o assunto volte a ser debatido na AR e que desta vez seja aprovada uma resolução decente, sem o que a vergonha pesará para sempre sobre ela.
Em 2019 o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que fazia aquela equiparação. Logo a AR aprovou um texto condenando os regimes totalitários mas evitando qualquer referência ao comunismo. O PS escusou-se a aprovar a proposta de outras bancadas e justificou com a necessidade de evitar «equiparações simplistas» que possam «branquear o nazismo». É uma vergonha.
Para o PS o totalitarismo criminoso que grassou na Europa na primeira metade do século passado reduz-se ao fascismo e ao nazismo. O comunismo estalinista fica fora da condenação. Não o aprova nem o defende mas esconde-o. Para quem tivesse dúvidas é esta a prova clara da dependência ideológica do PS relativamente aos comunistas e da sua incapacidade de adoptar atitudes claras relativamente ao estalinismo.
2 Pouco há que distinga o totalitarismo alemão do soviético. O crime foi comum. Expliquemo-nos.
Os totalitarismos comunista e nazi são gémeos. O totalitarismo é uma forma de organização do poder político que apareceu na Europa na primeira metade do século XX, diferente de tudo quanto ocorreu no passado, e que se caracterizou por pôr os cidadãos ao serviço de uma ideologia de Estado: ideo…logos ou seja, em nome de uma abstracção vale tudo e extraem-se daí todas as conclusões necessárias à sua efectividade porque se assim não for a ideia fica prejudicada. Matar pessoas? Qual é o problema? A (lógica da) ideia vale muito mais do que qualquer empecilho humano.
Se a ideia for, como foi, a purificação da raça ariana/alemã ou a consolidação no poder político da classe operária representada pelo partido, tudo quanto se oponha a estes desígnios tem de ser eliminado pela raiz. A morte era, portanto, uma necessidade impreterível de sobrevivência da raça alemã ou do proletariado soviético. O opositor passou a «inimigo» de classe ou a Untermensch e o seu lugar não era na oposição, era no campo de concentração ou nos gulags. Nazismo e comunismo foram verdadeiros devoradores de homens. A eliminação do «judeu» e dos membros de outras «raças inferiores», despromovidos a animais, bem como dos «burgueses» parasitas como os kulaks e de outros «contrarrevolucionários» era tão natural como o fornecimento de energia eléctrica, a canalização de água potável ou a construção de creches, apenas mais um serviço público essencial a fornecer por um diligente e modernizado aparelho administrativo.
A ideologia de Estado era de tal modo absorvente que, no contexto de guerra em........
