Kristin. Depois do SIRESP falhado, trancas na porta?
1 Um Estado que não está presente quando os cidadãos mais precisam é um Estado que coloca em causa a confiança dos cidadãos no seu próprio funcionamento. As tragédias e as catástrofes, por mais inesperadas que sejam, são momentos em que essa confiança pode ser seriamente abalada de forma automática e séria. Precisamente porque os cidadãos confiam que o Estado será capaz de assegurar a sua segurança através da antecipação e da comunicação.
Os responsáveis políticos e públicos podem argumentar que a tempestade Kristin foi a “tempestade mais forte” de que há registo em Portugal, com ventos superiores a 200 km/h, e a que a sua devastação na zona centro — que comporta 100 concelhos que representam 17% da população portuguesa e valem cerca de 15% do Produto Interno Bruto — é algo sem precedentes.
Mas há uma perceção ainda mais forte do que isso: cerca de 1 milhão de portugueses que foram os mais afetados pela tempestade Kristin sentem que o Estado não os protegeu porque não soube prevenir com rigor as consequências do desastre.
E será que tem mesmo de ser assim? Não, não tem. Basta olharmos para os países que lidam há mais anos com fenómenos climáticos extremos, como os Estados Unidos, Japão e até mesmo a China, para facilmente percebermos que a tecnologia permite recolher informação em tempo útil e um sistema de comunicação eficaz consegue fazer chegar a mesma rapidamente à população.
E quem foi a cara deste falhanço do Estado? O Governo, sem qualquer dúvida. Talvez o dia 28 de janeiro de 2026 tenha marcado o fim do estado de graça do Executivo de Luís Montenegro — até porque ainda falta saber muito sobre as causas de tanta incompetência.
2 É verdade que, depois de uma péssima avaliação da devastação da zona centro entre o dia 28 e 31 de janeiro — quatro longos dias em que o Governo foi claramente ultrapassado pela Câmara Municipal de Leiria e outras autarquias na resposta imediata à tragédia —, houve melhorias significativas.
A comunicação do primeiro-ministro, que anunciou o pacote de ajudas superior a 2,5 mil milhões de euros, foi um ponto de viragem. O pacote de emergência, que se concentra na reconstrução e na ajuda imediata às pessoas e às empresas, é adequado, alargado e financeiramente robusto. E a comunicação de Luís Montenegro, calma e segura, mostrou aos cidadãos lesados a presença do Estado numa altura fundamental.
A chegada dos apoios às pessoas e empresas de forma urgente ainda é uma incógnita, apesar de toda a desburocratização prometida. E esta uma das questões que poderá, ou não, permitir ao Governo uma reversão da situação em termos de confiança dos cidadãos.
Não é menos verdade que, após o falhanço comunicacional dos ministros Leitão Amaro (com um vídeo profundamente ridículo) e Maria Lúcia Amaral (uma jurista por quem tenho estima mas que não tem um perfil certo para uma comunicação de crise), Maria da Graça Carvalho tem sido, de longe, o membro do Governo mais capaz e competente em todas as vertentes desta crise.
Desde logo na capacidade de antecipação. Foi a própria ministra do Ambiente que garantiu, em entrevista à CNN Portugal, que começou a trabalhar nos seus planos de prevenção “há três semanas” — ou seja, desde aproximadamente 22 de janeiro, dia em que........
