Habitação: quando a demagogia ocupa o lugar das casas
O país não está a ferro e fogo, mas, por vontade de muitos, já estaria virado do avesso. Entre pedradas às casas de políticos, pedidos de expropriação e discursos inflamados contra quem tem a ousadia de possuir património, desconfio que os “Miguéis Tiagos desta vida” e alguns saudosistas do PREC, no fundo, mesmo no fundo, ainda sonham com um Campo Pequeno cheio de inimigos de classe. Felizmente, vivemos numa democracia liberal, onde a propriedade privada é um direito constitucional e não um privilégio concedido pela boa vontade de uma qualquer assembleia popular. A demagogia continua a ser o denominador comum de toda esta panóplia de reivindicações. Não quero com isto dizer que não exista um problema grave na habitação. Existe, e seria hipócrita, intelectualmente desonesto e até desumano da minha parte desvalorizar o drama de milhares de jovens que, apesar de trabalharem, não conseguem comprar ou arrendar uma casa. Os salários são baixos para o esforço financeiro exigido, a oferta é manifestamente insuficiente e a emancipação de uma geração inteira vai sendo sucessivamente adiada. Mas, como se um problema não bastasse, há sempre quem consiga juntar à mesma manifestação todos os males do mundo: o capitalismo, a guerra na Palestina, as alterações climáticas e, provavelmente, se houver tempo, a própria rotação da Terra. Tudo serve para alimentar a indignação, mesmo quando pouco ou nada contribui para encontrar soluções.
O que considero verdadeiramente demagógico, e até intelectualmente desonesto, são algumas das soluções apresentadas para resolver esta crise. Não é novidade que setores da esquerda, do PCP ao BE e a movimentos ainda mais radicais, continuam a olhar para a propriedade privada com uma desconfiança quase patológica. Expropriações, congelamento de rendas, limitações administrativas aos preços e uma intervenção cada vez mais musculada do Estado são apresentadas como se fossem descobertas revolucionárias, capazes de fazer Marx e Engels jubilarem de alegria. O problema é que a economia não funciona por decreto, muito menos por palavras de ordem gritadas numa manifestação. Se há conhecimento que valorizo, é aquele que resulta da experiência e da observação dos factos. E a história económica oferece-nos lições que seria imprudente ignorar. As experiências de economia centralmente planificada falharam na criação sustentada de prosperidade e liberdade. Também sabemos que congelamentos prolongados de rendas, quando não acompanhados por políticas que aumentem a oferta, podem........
