O detetive privado que passou a viver no nosso bolso
Antes de um primeiro encontro, há quem ainda pense na roupa, no sítio, na hora, nessas pequenas coisas normais. Mas, sejamos honestos, muita gente faz outra coisa primeiro. Ou logo a seguir. Pega no telemóvel e pesquisa o nome da pessoa. Vai ao Google, depois ao Instagram, talvez ao LinkedIn, e se houver Facebook ainda aberto, também lá passa. Não é propriamente uma investigação com bloco de notas e lupa, mas às vezes anda lá perto.
Eu própria já vi isto acontecer em conversas banais. Alguém menciona uma pessoa nova, alguém com quem vai sair, trabalhar ou dividir casa, e há sempre quem pergunte: “já foste ver quem é?”. A pergunta sai quase sem peso, como se fosse igual a confirmar a morada de um restaurante. E, no entanto, não é bem a mesma coisa. Procuram-se fotografias antigas, amigos em comum, publicações fora de contexto, opiniões soltas, ausências estranhas, excessos de exposição. Uma pessoa que ainda nem entrou verdadeiramente na nossa vida já está, de certa maneira, a ser avaliada por algo que nada temos a ver com.
Mas, isto não acontece só nos encontros. Antes de contratar um explicador para uma criança, aceitar alguém numa equipa pequena, arrendar uma casa, vender alguma coisa em segunda mão ou combinar uma boleia, o gesto repete-se. Parece prudente. Às vezes até é. Há burlas, perfis falsos, histórias mal contadas e gente que sabe apresentar-se muito melhor do que aquilo que é. Ninguém quer fazer figura de ingénuo. Ainda assim, há aqui qualquer coisa que se instalou devagar, com ar de bom senso, e que talvez mereça mais desconfiança do que temos dado.
A palavra “vigiar” soa pesada. Eu sei. Também me pareceu exagerada quando comecei a pensar nisto. Mas depois tentei encontrar outra e não encontrei nenhuma muito melhor. Antigamente, dizia-se que havia sempre uma vizinha à janela a saber quem entrava, quem saía, quem discutia, quem chegava tarde. Hoje, a........
