Tartarugas Cansadas
Bertrand Russell, nos finais do séc. XIX, enquanto estudante no Trinity College, teve como tutor John McTaggart Ellis McTaggart (a repetição do nome não é erro e tem explicação curiosa) com quem manteve diálogos que se tornaram peças de retórica e lógica.
Inicialmente, e ainda estudante, Bertrand Russell bebia do pensamento e ideias do professor. Alinhado com o mestre, ambos viam a verdade como uma construção mental que só seria validada se permitisse estabelecer relações com outras verdades já assumidas como tal.
Os que seguiam esta linha de pensamento, os “Idealistas”, viam a realidade essencialmente validada pelas relações que permitiam. A verdade só poderia ser tomada como tal se outras houvesse que lhe dessem consistência. Tudo o que não tivesse expressão na mente e não fosse corroborado pelo complexo de inter-relações que arquitetava, não existiria na realidade. Tal enquadramento poderá parecer estranho, mas à época, a filosofia “mainstream” era dominada por uma leitura espiritual de Friedrich Hegel, empenhada na defesa da religião, monarquia e Estado. Esta interpretação espiritual, religiosa e metafísica da realidade foi leitura dominante durante décadas até ser substituída pelo positivismo de Auguste Comte, uma visão em que o conhecimento se baseava na experiência e na observação.
Bertrand Russell surge na transição destas visões e a sua vida foi marcada pela evolução de um conhecimento património da mente e das ideias, para um outro mais pragmático e validado no método científico.
Russell, inicialmente estudante de ciências matemáticas, dedicou grande parte da sua atenção à epistemologia e análise lógica da linguagem científica tornando-se, na sua época, numa das figuras centrais do pensamento baseado na lógica e análise. Ao recusar toda e qualquer explicação metafísica e, para desgosto do mestre, de qualquer ontologia alicerçada numa malha de relações, tornou-se alvo da crítica do meio onde tinha dado os primeiros passos.
E é no momento desta cisão intelectual, entre o mestre “Idealista” e o aluno que despontava para a lógica, que surge uma história registada nos anais da retórica e dedução analítica.
Perante a defesa, por parte de Russell, de uma realidade não validada por relações com outras verdades, um McTaggart, eventualmente descontrolado, perguntou:
— Se aceita como possível verdade afirmações sem relação entre si, então como refuta que “se dois mais dois for igual a cinco, eu (McTaggart) sou o Papa?” – McTaggart usa esta formulação para demonstrar que o erro assentava na ausência de relação entre as duas afirmações.
Russell resolvendo o paradoxo abordando a questão pelo lado da lógica, ao demonstrar que era possível estabelecer uma relação, apesar de ambas as premissas serem falsas e, sem grande hesitação, respondeu — “se dois mais dois são cinco, então quatro é igual a cinco. Se a ambos subtrairmos três (5–3 e 4–3), obtemos dois e um, onde 2=1. Ora, como McTaggart e o Papa são dois e dois é igual a um, então McTaggart e o Papa são a mesma pessoa!”
Para os idealistas, objetos e relações não existiam de forma independente e tinham de respeitar a relevância do conteúdo. Para os idealistas como McTaggart, o absurdo destas proposições resultava apenas da ausência de relação entre si. A pergunta, “se “2 2=5”, então “eu” sou o Papa!”, não é sobre matemática nem sobre o Papa. É uma armadilha lógica, e Russell revela-o ao demonstrar que, na arquitetura da lógica, se existir uma contradição, ela nunca fica localizada e espalha-se por todo o sistema. Se fosse permitido “2 2=5”, então tudo seria possível e McTaggart poderia ser o Papa! Para Russell, o desafio não era falso pela ausência de relação, mas porque partindo de uma premissa falsa todas as deduções ficavam inquinadas.
Revelar uma contradição não resulta do facto da realidade estar baseada em construções mentais, mas apenas do facto de não poder existir fora da lógica. Se permitimos o ilógico, a argumentação subsequente nunca mais é corrigida e toda a construção, por mais rebuscada que a sua ontologia seja, fica........
