Talvez
Talvez é um dos meus vocábulos favoritos. Admiro-o pela elegância e austeridade. É uma palavra enganadora. Dona de uma certa aspereza de língua, denuncia no íntimo a sua verdadeira natureza.
Talvez é uma doutrina, um termo que tudo diz, quase sempre sem nada dizer – talvez eu faça isto, talvez faça, talvez não, talvez, quem sabe! Talvez embrulha na fala aquilo que a química dos sentimentos nos murmura.
Talvez é firmeza dita com ternura. Talvez não fecha uma porta, mas também não a abre, não encerra um assunto, mas também não lhe permite abandono.
Talvez não é indiferença, desinteresse, alheamento ou apatia. E ainda que o seja, é-o sem talvez o saber.
Talvez é matriz da ciência pura, a certeza a que ainda se não disse não. Talvez é a evidência que hoje basta, amanhã, talvez não.
Talvez é ciência. Talvez é o que hoje parece dar certo, o que hoje guia, o que ilumina, mas só hoje. Amanhã, talvez, quem sabe! Talvez amanhã haja uma nova verdade, uma outra que nos diga talvez não.
Talvez pode ser tudo e nada, nunca deixando de ser talvez. Talvez pode ser sim, pode ser não, pode ser sim e não, ou ser simplesmente talvez. Talvez é quântico, tão quântico quanto o paradoxo do gato.
Talvez também é paradoxo, como o “talvez nunca” de Aquiles e a tartaruga.
Desconfio das palavras que........
