O Que Podemos Saber?
O que podemos saber, o que sabemos e como o sabemos são questões para as quais frequentemente não temos resposta. Nem mesmo os apofáticos, os que procuram um sentido descrevendo o que as coisas não são, nem mesmo esses conseguem encontrar a essência do que procuram. Não há como fugir a uma realidade inescapável. Tudo tem sempre algo de subjetivo. Todas as descrições que fazemos pertencem ao mundo que habitamos e não há como fugir. Somos sempre espectadores dos nossos próprios atos. Não há metalinguagem que permita mergulhar na realidade e até mesmo a matemática, a linguagem da lógica, fica contraintuitiva quando lida com infinitos e conjuntos vazios.
Na procura de uma verdade universal, produzimos muita informação. Informação que pode resultar em conhecimento, mas também muita outra má, incompleta ou mesmo falaciosa, mas sempre disponível e com a mesma aparência de autoridade.
Pelo volume e facilidade com que criamos a informação esta deixou de ter o valor de outros tempos. Saímos de uma cultura oitocentista onde era um bem valioso, para uma outra que a remete para a vulgaridade. Ainda assim, temos uns quantos prosélitos que insistem, ad nauseam, na oferta de mais informação, uma recorrência que embrulham em seda de competência técnica e a que dão o pomposo nome de literacia. Literacia disto e daquilo, como se, banhados por hipnopedia vígil, nos alfabetizássemos em ciência, saúde, direito, et cetera.
Como é óbvio, quem lucra é quem vende e quem dela cria necessidade e modo de vida. A informação tornou-se banal, excessiva, intrusiva e, ao diluir pilares das referências éticas e sociais, acaba por limitar a própria liberdade.
Já neste milénio, Zygmunt Bauman descreveu o que rotulou como modernidade líquida: um mundo onde as instituições, as identidades e as relações se tornam instáveis. O excesso e a facilidade de acesso à informação, não sendo causa única, participam em peso nesta máquina de liquefação. A realidade deixou de ser algo que identificamos para se transformar numa entidade plástica e líquida que se metamorfoseia à medida que a observamos. Deixámos de procurar verdades e passámos o farol para as narrativas. A incerteza torna-se permanente e estrutural e, nessa perda, deixámos de ter orientação.
Ora bem, este é o tema do último romance de Ian McEwan – O Que Podemos Saber –, cujo título tomei emprestado para o presente artigo de opinião.
O romance é, como o título indica, uma reflexão epistemológica sobre o que sabemos e como o podemos saber.
O cenário inicial decorre em 2119. Num futuro onde o protagonista, Thomas Metcalfe, é um académico fascinado pelo período compreendido entre 1990 e 2030.
Logo na descrição que o historiador faz do nosso mundo, departamo-nos com uma primeira ironia – a estranheza com que nos percepcionam quando observados de um futuro não tão distante. E estranhamos!
Nós leitores e habitantes da realidade atual, ao vê-la assim descrita sentimo-nos desconfortáveis e incompletos. Sentimos que a visão que os do futuro vão ter de nós não corresponde à realidade que conhecemos. É como se lhes faltasse algo que necessitassem para nos compreender. Algo que intuímos, mas que outros, os que nos observam pelo seu retrogradoscópio não conseguem captar. E a primeira ironia é mesmo essa. Tudo o que tomamos como certo pode, mais tarde, ser lido sob uma lente que transforma os relatos históricos em visões de factos reais, mas subjetivas enquanto construções.
No romance o mundo de 2119 é em tudo diferente do primeiro quarto do século XXI. Visto do futuro esse período é tido como uma época rica, mas um mundo que se perdeu a si mesmo.
Para os do futuro, o nosso tempo possuía uma abundância inimaginável em liberdade, energia,........
