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Isto não é ato Médico!

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Todas as Escolas de Medicina, públicas ou privadas, reconhecem que a escassez de doentes disponíveis e adequados aos objetivos pedagógicos é um dos principais obstáculos ao ensino da medicina. Na sua maioria não dispõem de doentes em número ou de diversidade adequada ao ensino. Face à escassez que reconhecem procuraram soluções alternativas. Apostaram na simulação clínica, em tecnologias de ensino e em modelos pedagógicos inovadores que, embora úteis para a aprendizagem de técnicas e procedimentos, não substituem a experiência decorrente do contacto com um doente. A simulação é um excelente instrumento de treino, mas não pode transformar-se no centro da formação médica.

O discurso oficial torna-se, por isso, paradoxal. Afirma-se que o país necessita de mais médicos e aceita-se que não existam doentes em número suficiente para os formar!

Algumas Faculdades optaram por dispersar os estudantes por múltiplas unidades de saúde, separadas por distâncias geográficas pouco compatíveis com um ensino estruturado. Outras encontraram uma solução ainda mais curiosa, deslocaram o foco da aprendizagem do doente para o saudável.

O saudável passou a constituir um novo objeto de intervenção. Deixou de ser encarado como alguém sem doença, para representar um estado transitório, suscetível de vigilância, correção e otimização. E é aqui que reside um dos equívocos da organização contemporânea dos sistemas de saúde. Afirma-se que faltam médicos, mas raramente se pergunta quantos problemas classificados como “médicos” são verdadeiramente um problema médico.

Ao longo das últimas décadas, a medicina foi progressivamente alargando o campo de intervenção. Passou a ocupar-se não apenas da doença, mas também dos estilos de vida, dos comportamentos, do bem-estar, da felicidade, da prevenção e de um número crescente de questões sociais e administrativas. A cada nova responsabilidade atribuída ao médico corresponde inevitavelmente um aumento da procura. Não surpreende, por isso, que pareça faltar médicos. Faltarão, enquanto persistir a tendência para transformar qualquer necessidade, qualquer problema social ou qualquer decisão administrativa num problema médico.

Porém, nem todos os problemas que chegam ao médico são realmente problemas médicos. Enquanto esta distinção não for assumida, continuaremos a responder à alegada falta de médicos aumentando o seu número.

Sem esta distinção, a atividade médica expande-se muito para além da doença. Multiplicam-se consultas, programas e indicadores destinados a vigiar fatores de risco, probabilidades estatísticas, hábitos de vida, estados de bem-estar, níveis de satisfação e um número crescente de variáveis que, sendo relevantes para a saúde pública, dificilmente justificam, por si só, serem consideradas como atos médicos.

O médico fica então capturado em funções de conselheiro alimentar, treinador de exercício físico, gestor do sono, orientador de estilos de vida, avaliador de felicidade, prescritor de comportamentos, mediador de conflitos sociais e certificador de........

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