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#Thanatos

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18.05.2026

Finais da década de noventa, já à beira do milénio, quem então terminava a formação trazia consigo mais vontade que ferramentas. Havia ainda um longo caminho a percorrer até alcançar a estabilidade. As opções de então eram escassas e muitas vezes resumiam-se a infindáveis fins-de-semana e horas de urgência. Era por isso que em St.º Tirso ocupava regularmente fins-de-semana que dividia com mais dois colegas. Aquele sábado calhava-me a mim.

Nesse tempo a perder o rasto na memória, nas manhãs de sábado, de quase todos os sábados, imperava uma tranquilidade melosa e lenta. Eram fins-de-semana em que se abrandava como se a semana estivesse a vestir cores outonais. Eram alturas em que nos permitíamos tudo fazer sem pressa, tempos em que o cuidar do outro era determinado pelo que se fazia e não pelo que havia por fazer. Havia tempo para ouvir. Ouvir era importante, sempre foi.

O hospital, a essa hora, e nesses sábados, tinha uma quietude própria. Não era silêncio. Eram os longos corredores banhados de luz branca, um lugar onde o ruído distante de passos, ou das vozes baixas dos que por ali passavam deixava uma marca, um rasto que parecia esfumar-se nas poucas sombras que aquele mar de luz permitia. Eram manhãs que começavam tímidas, numa lentidão própria de quem ainda se está a decidir.

Durante a semana, tudo pertencia aos doentes, à profissão, à carreira, ao que ainda estava por provar. Os fins-de-semana, em regra, eram para o sustento ou, menos vezes, para a família. Os que entravam nesta voragem acabavam escravos de um ritmo que nunca era verdadeiramente o seu. Havia nessa distribuição algo de claro, quase ordenado, como se o respirar pudesse ser distribuído em partes estáveis. A família reclamava, eu reclamava, o cansaço reclamava, mas a vida exigia.

Nesse dia, porém, nessa quietude matinal, aconteceu algo que me marcaria para sempre. Foi o dia em que conheci Carlos.

Habitualmente, o que me foi pedido é função dos médicos do internamento. Os que asseguravam o serviço de urgência eram chamados apenas para resolver alguma situação urgente. Acontecia com frequência e esse era um dos motivos por que éramos necessários.

Nessa manhã foi-me pedido algo de invulgar, algo que não sendo urgente, acabou por se revelar incontornável.

A vida tem destas coisas – momentos de infortúnio em que somos confrontados, encurralados sem escapatória possível. Se acedemos ao que pedem, escrevemos e pomos no bolso de alguém “a carta final”, o segredo que preferimos conhecer no último segundo. Se tomamos outra opção, se não contamos a verdade, bom aí entramos num equilíbrio que eu jovem não estava preparado para assumir – mentir ao doente como forma de o proteger. Não estava preparado para isso.

Conhecia as doenças, os mecanismos, os tratamentos, os prognósticos, mas não conhecia as pessoas.

Carlos devia ter na altura quarenta e poucos anos. Era alto, magro, de cara seca e olhos negros penetrantes. Tinha um rosto duro. O olhar espelhava determinação, uma vontade inquebrável de tomar o destino nas mãos. Uma determinação que só lhe era traída pelas dúvidas que a sua doença levantava. Carlos estava há dias internado........

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