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Portugal: consumação medieval ou formação multissecular?

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29.10.2026

Por determinação do governo, e com estrutura oficial criada para o efeito, o país vai iniciar um ciclo comemorativo da “fundação de Portugal”, evocando os 900 anos da batalha de São Mamede, em 2028, da batalha de Ourique, em 2039, e do tratado de Zamora, em 2043. E à próxima geração competirá talvez recordar os 900 anos da bula Manifestis Probatum, do papa Alexandre III, em 2079. Segundo a resolução ministerial, as comemorações constituirão “um imperativo e uma oportunidade de promoção do conhecimento histórico e de afirmação da identidade nacional, de reforço da consciência cívica e de promoção dos valores fundadores da Nacionalidade”. E, de novo citando o governo, o racional das datas é claro: 1128 permitiu a D. Afonso Henriques a “consagração” como “primeiro monarca português”, encetando, com a “consolidação da autonomia política do Condado Portucalense”, um processo de “formação de Portugal” que se “afirmaria” em Ourique, em 1139, e se “consumaria” em Zamora, em 1143.

Politicamente, este descritivo levanta problemas. E historicamente, enferma de vários simplismos. “Fundação”, “afirmação” e “consumação”, no curto espaço de 15 anos (1128-1143) conferem ao dito processo de formação um enunciado fixista, à maneira de uma história oficial – e oficialmente ditada – de cariz autocelebrativo por parte de quem comanda a celebração. E isso empresta ao fluir da história que se pretende evocar um tom e um sentido teleológicos, essencialistas, providencialistas, se não mesmo triunfalistas, que correm o risco de alimentar patriotismos anacrónicos e leituras usurpadoras do passado para combates ideológicos (e partidários) do presente. Foi assim em 1880, quando o tricentenário de Camões acabou a “republicanizar” o poeta para acusar a monarquia de decadência; foi assim em 1940, quando o duplo centenário de 1140 e de 1640 materializou na Exposição do Mundo Português, na Belém lisboeta, um altar da pátria destinado a glorificar o salazarismo como a melhor reencarnação........

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