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O Discurso

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25.09.2026

A senhora presidente da União Europeia dirigiu-se ao Parlamento Europeu em 16 de Setembro, proferindo um discurso sobre o “Estado” da União. Trata-se de uma importação da prática tradicional nos EUA (desde 1790, por George Washington) de o Presidente se dirigir ao Congresso uma vez por ano.

Uma prática europeia infeliz e nada inocente por inculcar a ideia de que o presidente da Comissão é depositário, como sucede com o presidente americano, de alguma espécie de autoridade própria que lhe permita ter uma visão sobre o futuro que devamos atender.

Ursula von der Leyen não foi eleita, mas nomeada pelo Conselho num processo interno de trocas e baldrocas cujos contornos exactos ignoramos e, pior, que muito poucos cidadãos sequer querem conhecer.

O Parlamento confirma a nomeação e, como é eleito, confere uma chancela democrática à nomeação. Sucede porém que o “Parlamento” não tem iniciativa legislativa, isto é, não é um parlamento. Os seus membros são eleitos em cada um dos países consoante as realidades partidárias nacionais, os resultados das eleições interpretados, e bem, segundo a dinâmica da guerrilha eleitoral local. Poder-se-á dizer que quase ninguém conhece os deputados europeus (nem sequer, o mais das vezes, dentro de cada país os que para lá despachou), mas que isso é uma inevitabilidade: em Portugal, por exemplo, ninguém sabe quem são aqueles senhores das terceiras filas das bancadas da AR (às vezes até das segundas, ou até da primeira no caso de partidos exóticos) e isso não lhes diminui a representatividade. E não, de facto, porque se presume que concordam com o que decidem os directórios partidários, cujas orientações, aliás e com todo o direito, às vezes não seguem. Já os deputados europeus agrupam-se segundo orientações de partidos internacionais que têm uma consistência de tal modo diluída que existem apenas para encontros devidamente publicitados para fazer prova de vida.

Daí que os senhores jornalistas teriam feito bem em grafar o “Estado” como “estado” porque o que se esperaria era um relatório de um funcionário superior, não um discurso empolgado quanto ao exaltante futuro da “construção europeia” que, no essencial, se traduz nisto: vamos, de passo em passo, aprofundar a integração de modo a que um dia constituamos uma federação que ninguém escolheu. A opinião pública, agarrada a nacionalismos obsoletos, dará por si na situação do sapo que foi cozido numa panela cuja temperatura subiu tão lentamente que o animal não deu conta de ter falecido.

Não que tudo isto interesse muito aos portugueses: enquanto recebermos mais do que pagamos e a livre circulação de pessoas permitir ir à procura sem entraves de melhores empregos, está tudo bem. E que uns políticos supranumerários vão para Bruxelas ou Estrasburgo arredondar os seus rendimentos, e uns funcionários enxamear ignotos organismos onde se ganha bem, também não faz mossa, pelo contrário: são os outros que pagam, os louros que se entendam mesmo que alguns sejam morenos.

Este o pano de fundo. Que disse então a senhora, num discurso de mais de uma hora?

Alguma palha (faz parte) e muita uva, esta azeda para o meu paladar. Vejamos:

No introito diz, entre outras coisas:

Uma Europa que se liberta da dependência tóxica dos combustíveis fósseis da Rússia. Que se tornou a maior potência comercial do planeta. Que procura transformar a sua política industrial, preservando o seu modelo social único.

Só aqui já temos a burra nas couves, Úrsula. A Europa, para se libertar da dependência, o que fará é reverter o que não devia ter feito, isto é, encerrar centrais atómicas e a carvão (ainda que, quanto a estas últimas, o desespero ainda não vá a ponto de dar o dito por não dito). Apresentar como iniciativa nova e louvável aquilo que mais não é do que a correcção do asneirol anterior é intelectualmente pouco honesto. E a “aposta” nas energias renováveis (a propósito, entidades com poderes legislativos e de........

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