Vivemos tempos amorais, e se calhar teremos de nos habituar
Quando o muro de Berlim caiu em 1989, e o mundo soviético se desmoronou, acreditou-se entrar num tempo novo, um tempo de prosperidade, democracia e ordem global. Um tempo de, segundo a imagem célebre de Francis Fukuyama, “fim da História”: a vitória das democracias liberais na Guerra Fria correspondia ao triunfo dos regimes liberais e acabaríamos por assistir ao seu triunfo em todos os países. O massacre de Tiananmen fora apenas um solavanco, um contratempo, pois quando a China se tornasse mais rica e criasse a sua própria classe média, também ela se tornaria democrática.
Sensivelmente na mesma altura, um outro cientista político, Samuel P. Huntington publicou um outro livro muito optimista em que descrevia aquilo que definiu como uma “terceira vaga” de transições democráticas, vaga iniciada em Portugal 1974 e que se estendera depois a mais 60 países, da América Latina à Europa de Leste. Ou seja, parecia estarmos mesmo a viver tempos gloriosos.
Havia contudo sinais inquietantes – guerras nos Balcãs e no Cáucaso, guerras civis na Argélia, na Somália e no Afeganistão, tensão em Caxemira e no Sri Lanka – que levaram o mesmo Samuel P. Huntington a publicar, dois anos depois, um ensaio muito mais controverso sobre o que definiu como “choque de civilizações”. E se durante alguns anos o debate ficou entre especialistas, os atentados do 11 de Setembro de 2001 trouxeram-no para a primeira página dos jornais. Houve até quem lhe tivesse querido contrapor uma “Aliança de Civilizações” (uma iniciativa de duas figura tão lamentáveis como o espanhol Zapatero e o turco Erdogan, depois secundados pelo nosso Jorge........
