Um país à espera das Forças Armadas que a lei impede de agir
No rescaldo da tempestade Kristin, Portugal descobre, de súbito, que as Forças Armadas existem. Este tipo de descoberta acontece, normalmente, quando há desfiles, incêndios, cheias ou, como agora, uma tempestade que varreu postes, árvores, telhados, casas, vidas, e a compostura nacional.
E então, invariavelmente, surge a proverbial pergunta televisiva, dita com ar de quem acaba de resolver a quadratura do círculo:
— “Mas os militares estão nos quartéis a fazer o quê?”
A frase sai com um tom meio indignado, meio infantil, como se as Forças Armadas fossem um grupo de escuteiros pagos pelo Estado, prontos a correr para onde o primeiro “popular” ou pivot televisivo, aponte o dedo.
Mas convém, antes de berrarmos ordens aos batalhões pela televisão, perceber o pequeno detalhe de que as leis do país, infelizmente, não obedecem ao telejornal das oito.
Comecemos pelo básico, que raramente passa no rodapé das notícias. O Governo decretou o “estado de calamidade”. Que não é guerra, nem golpe, nem lei marcial, mas simplesmente um regime administrativo da Protecção Civil. Manda o Governo e coordena a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil.
O que fazem as Forças Armadas? Apenas o que lhe mandam fazer, nem mais nem menos um milímetro. Os militares não são um corpo autónomo que decide que “hoje vamos limpar árvores em Leiria”, porque nos apetece. Só actuam quando formalmente........
