Os EUA à mercê dos fígados do Aiatola
Em certos casos a política internacional é bastante simples.
Continua a ser perigosa, naturalmente. Continua a ter mapas, interesses, alianças, petróleo, sondagens, diplomatas de linguagem criativa e generais que falam por eufemismos, mas deixa de ser complexa. Reduz-se até a uma pergunta simples: quando uma civilização é atacada por quem a quer destruir, defende-se ou negoceia as condições da próxima humilhação?
A crise entre os EUA, Israel e o Irão chegou precisamente a esse ponto. Cem dias depois de Washington e Jerusalém terem entrado numa campanha destinada a travar o programa nuclear iraniano, degradar a indústria de mísseis balísticos da República Islâmica, cortar os braços terroristas de Teerão e, talvez, criar as condições para a queda do regime, a aliança entre os EUA e Israel atingiu o seu momento mais baixo. Não por falta de meios. Não por falta de diagnóstico. Não por falta de inimigo. Mas por falta de vontade o que, na guerra é apenas uma forma sofisticada de convite à agressão.
Com o norte de Israel fustigado pelo Hezbollah, Israel atacou simbolicamente Dahiyeh, o reduto terrorista nos subúrbios de Beirute. O Irão, fazendo aquilo que as ditaduras fazem quando interpretam a prudência alheia como medo, disparou mísseis contra o norte de Israel. Israel preparou-se para responder.
E então surgiu Donald Trump, não como líder do mundo livre, mas como moderador de recreio numa escola problemática: já chega, cada um teve a sua diversão, Israel bateu, o Irão bateu, agora portem-se todos bem. É difícil encontrar melhor resumo da decadência estratégica ocidental. Uma democracia atacada e uma teocracia agressora são colocadas no mesmo plano, como se Israel e a República Islâmica fossem dois vizinhos barulhentos a discutir lugares de estacionamento. A palavra “diversão”, aplicada a mísseis lançados por um regime que há décadas financia terrorismo, persegue dissidentes, arma proxies e procura chegar à bomba nuclear, é quase perfeita. Não por ser verdadeira, mas por ser reveladora. Mostra até que ponto uma parte da política americana já não consegue distinguir contenção de abdicação.
Trump quer um acordo. Não há nada de errado em querer um acordo. O problema começa quando o acordo passa a ser mais importante do que o objectivo que devia servir. A prioridade deixou de ser impedir o Irão de obter armas nucleares, neutralizar a sua rede regional ou restaurar a dissuasão. A prioridade passou a ser reabrir o Estreito de........
