Taiwan, Trump e o fim da inocência estratégica europeia
Durante décadas, a segurança das democracias dependeu de uma convicção simples: quando chegasse o momento decisivo, os Estados Unidos estariam do lado certo. Nem sempre de forma perfeita, nem sempre de forma desinteressada, nem sempre sem contradições. Mas, no essencial, a arquitectura internacional do pós-guerra assentou na ideia de que Washington era o centro de gravidade do mundo livre.
Essa ideia está hoje em crise.
A recente visita de Donald Trump à China voltou a expor uma realidade que a Europa já não pode ignorar. O Presidente norte-americano entrou em Pequim com o aparato próprio das grandes cimeiras, trocou elogios com Xi Jinping, falou de um futuro “fantástico” nas relações entre os dois países e aceitou enquadrar a relação sino-americana como uma relação entre as duas grandes superpotências do mundo. Do outro lado, Xi Jinping fez o que a China faz com crescente confiança: recebeu, sorriu, falou de cooperação e deixou o aviso essencial. Taiwan é a linha vermelha. Taiwan é o ponto sensível. Taiwan é, para Pequim, a questão que pode fazer descarrilar tudo.
É precisamente aqui que a Europa deve prestar atenção.
Não porque devamos fingir surpresa. Donald Trump nunca foi um defensor coerente de uma doutrina internacional. É, antes, um político transaccional, instintivo, muitas vezes contraditório, que hoje pode chamar Xi Jinping de amigo e amanhã acusá-lo de destruir a economia americana. Hoje pode sugerir uma aproximação à China, amanhã pode anunciar tarifas punitivas. Hoje pode relativizar compromissos estratégicos, amanhã pode prometer firmeza absoluta. Esta volatilidade faz parte da sua marca política.
O problema é que o mundo não é um programa de televisão. Taiwan não pode viver à espera do próximo improviso. A Ucrânia não pode depender da próxima variação de humor em Washington. A segurança europeia não pode assentar na esperança de que a Casa Branca acorde, todos os dias, do lado certo da cama.
A aproximação aparente de Trump à China deve, por isso, ser lida menos como um episódio isolado e mais como um aviso estratégico. A Europa habituou-se durante demasiado tempo a viver protegida pela força americana, regulada pelo mercado americano, coordenada pela diplomacia americana e, em muitos momentos, desculpada pela liderança americana. Quando era preciso decidir, Washington decidia. Quando era preciso dissuadir, Washington dissuadia. Quando era preciso pagar a factura, Washington pagava uma parte desproporcionada.
Esse tempo acabou, ou pelo menos já não pode ser dado como garantido.
A guerra na Ucrânia já tinha tornado isso evidente. A Rússia invadiu um Estado soberano europeu, tentou redesenhar fronteiras pela força e procurou demonstrar que a vontade imperial podia prevalecer sobre o direito internacional. A resposta europeia, apesar de atrasos, divisões e hesitações, mostrou que a União Europeia é capaz de actuar quando é obrigada pela realidade. Sanções, apoio financeiro, apoio militar, acolhimento de refugiados, reforço industrial, coordenação diplomática. Nada disto foi perfeito. Mas foi muito mais do que muitos julgavam possível.
A lição da Ucrânia não deve ficar confinada à Ucrânia.
Taiwan é hoje uma das grandes linhas da frente da disputa entre........
