Uns e os outros
Tenho um amigo com quem costumo travar algumas picardias verbais, pois frequentemente estamos em desacordo. Um destes dias, falava-me da sua convivência com um grupo de muçulmanos e rematou, satisfeito, que “eles são como nós”. A frase ficou a ecoar-me, talvez porque exprime uma boa intenção, mas não a verdade. Não, eles não são como nós. Não o são naquilo que forma o tecido de uma civilização: nos hábitos familiares, na relação entre homens e mulheres, na forma de comer, de vestir, de rezar, de educar os filhos, de lidar com a liberdade, com a dúvida ou com o sagrado. Somos culturas distintas, moldadas por histórias diferentes e por normas que nascem de matrizes também elas diferentes: a greco-romana e judaico-cristã, de um lado; a islâmica, de forte cunho jurídico-religioso, do outro.
No Ocidente, mesmo com todas as derivas pós-modernas, o indivíduo é o centro da ordem jurídica. A lei separa se da religião, o Estado separa-se da Igreja, a consciência pessoal é um espaço que, pelo menos em teoria, o poder não deveria colonizar. No mundo muçulmano tradicional, a religião não é apenas crença; é lei, código, polícia dos costumes. A Sharia não é um detalhe teológico: é uma arquitectura normativa que desce da mesquita para a rua, do púlpito para o tribunal.
Tomemos o exemplo da liberdade de expressão. No Ocidente, um escritor pode insultar deuses, governantes e dogmas; pode ser cancelado nas redes, mas não costuma ser condenado à morte. No caso de Salman Rushdie, a reacção foi exactamente essa: em 1989, o aiatola Khomeini emitiu uma fatwa pedindo a execução do escritor pelo romance The Satanic........
