A guerra que a economia não explica
A guerra voltou, e voltou a colocar-nos disciplinados naquilo que melhor sabemos fazer: medir. Medem-se preços, riscos, impactos; projectam-se cenários; afinam-se previsões com a convicção de que, ao compreender as consequências, se está já a avaliar o acontecimento. É uma ilusão respeitável, mas perigosa. Porque a guerra, quando chega, traz consigo um passado que não cabe em gráficos. E aquilo que verdadeiramente importa não é apenas o que ela faz ao mundo, mas o que o mundo foi fazendo, lentamente, até a tornar possível.
A análise económica é indispensável. Ajuda a ordenar o imediato, a antecipar efeitos, a preparar respostas. Mas chega tarde, chega quando o conflito já se impôs, quando a realidade já não pode ser negociada. O seu rigor descreve o depois; o seu alcance, porém, é limitado para explicar o antes. E esta, como tantas outras guerras, não se trata de um episódio isolado, nem um erro súbito. É o resultado de uma acumulação longa, persistente, muitas vezes ignorada; não por falta de informação, mas por excesso de confiança em explicações cómodas.
Durante décadas, o Médio Oriente foi sendo lido como um espaço de instabilidade crónica, quase natural. Uma região onde o conflito se repete com a regularidade das estações, dispensando esforço interpretativo. Hoje há tensão, amanhã há escalada, depois há negociações – e o ciclo recomeça. Esta leitura tem a vantagem de simplificar: transforma o problema em paisagem. Mas aquilo que se repete não é inexplicável, é contínuo, e a continuidade exige memória.
O regime iraniano não pode ser compreendido fora dessa continuidade. A ruptura de 1979 não foi apenas política; foi civilizacional no seu alcance interno. Não mudou apenas governantes; alterou a natureza do poder, fundindo religião, lei e Estado numa mesma arquitectura. O Irão deixou de ser um actor entre outros para se afirmar como um projecto que combina estratégia com doutrina, cálculo com crença.........
