Os Passos de Passos
Há uma arte rara na política que Passos Coelho domina como poucos, a gestão do silêncio. Numa era em que todos falam, todos comentam, todos reagem, todos se posicionam em tempo real e com a elegância de um tweet mal-humorado, Passos escolheu o caminho inverso. Recuou para a vida privada com uma dignidade que, em si mesma, já era uma declaração política.
Não se tornou comentador televisivo, não cultivou uma presença digital ansiosa, não criou movimentos, não apareceu em jantares de homenagem para manter a chama acesa. Guardou o silêncio com a serenidade de quem não precisa de audiência para saber quem é. E isso, numa classe política que frequentemente confunde visibilidade com relevância, é uma forma de carácter que os portugueses reconhecem, mesmo quando não o verbalizam.
A dignidade com que saiu do poder é, paradoxalmente, uma das razões pelas quais a hipótese do seu regresso é levada a sério. Os que saem mal nunca regressam bem. Os que saem com a cabeça erguida deixam sempre uma porta entreaberta.
A questão não é apenas saber se Passos Coelho regressa. A questão é saber que PSD emergiria desse regresso e que direita portuguesa se redesenharia à sua volta.
Um PSD liderado por Passos Coelho seria, necessariamente, um partido diferente do que hoje existe. Mais exigente internamente, mais rigoroso na mensagem, mais disposto a defender posições impopulares com a convicção de quem acredita nelas. Seria um PSD que recuperaria a tradição liberal-social que o caracterizou nos seus melhores momentos históricos, sem ceder à tentação do populismo de direita nem à do centrismo amorfo.
Seria também, inevitavelmente, um PSD em ruptura suave com a sua própria acomodação ao poder. Passos não é um homem de conforto, é um homem de projecto. E projectos exigem, por definição, algum grau de disrupção com o estado das coisas. Os que dentro do partido aprenderam a sobreviver na ambiguidade terão razões para se inquietar. Os que ainda acreditam que os partidos existem para alguma coisa, para além de gerir ministérios, terão razões para se entusiasmar.
Há uma dinâmica que os analistas políticos começam a discutir em voz mais alta, a presença activa de Passos Coelho no tabuleiro político seria, provavelmente, o mais eficaz contrapeso ao crescimento do Chega. Não por confronto directo, porque Passos nunca foi homem de guerras fratricidas, mas por esvaziamento natural.
Um Passos Coelho em campo reduz o mercado eleitoral de Ventura de forma mais eficaz do que qualquer acordo ou cordão sanitário. Porque não combate o populismo com mais populismo, combate-o com a única coisa que o populismo genuinamente teme, a competência séria e credível. Ventura construiu uma marca. Passos Coelho construiu um legado. A diferença entre ambos é a diferença entre quem grita para ser ouvido e quem cala para ser escutado.
A política portuguesa está, neste momento, numa daquelas encruzilhadas que surgem poucas vezes numa geração. A direita fragmentada, o governo fragilizado, o populismo a tentar preencher o vazio, e um país que, sob a superfície da normalidade democrática, procura algo que vai para além da gestão, procura liderança.
Pedro Passos Coelho ouviu o seu nome ser pronunciado mais vezes do que qualquer candidato a Presidente da República durante toda a campanha eleitoral. Ouviu-o e ficou em silêncio. Talvez porque o silêncio seja, ainda, a resposta certa. Talvez porque o momento ainda não chegou. Talvez porque um homem que esperou com paciência cirúrgica pelo momento certo ao longo de anos saiba melhor do que ninguém que a pressa é a maior inimiga do regresso bem-sucedido.
Ou talvez, e esta é a hipótese que ninguém consegue verdadeiramente afastar, o silêncio esteja prestes a terminar.
Os passos de Passos têm sido, até agora, os de quem sabe para onde vai sem precisar de anunciar a direcção. Quando um homem assim começa a mover-se, Portugal costuma dar por isso. Não pelo barulho que faz, mas pelo tremor que deixa no chão. E esse chão, ultimamente, já treme.
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