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Portugal entretém-se com o ruído do dia. São Pedro abriu a torneira sem pedir licença. Das redes sociais às televisões discutem-se cheias, secas, barragens e a falta delas, reformas, eleições, candidatos a ministro, o PRR e o omnipresente Estado. Tudo num atropelo sem fim. Os dias voltaram a ser soalheiros, mas há forças a ganhar velocidade que não param nem com bom tempo. A mudança sistémica acelera indiferente à espuma dos dias. Refiro-me, naturalmente, à Inteligência Artificial. Que, com mais ou menos Amálias(1), não pede pareceres prévios.
Convém fixar a tese desde já, para que não haja equívocos. A IA não é apenas mais uma ferramenta. A IA vai reconfigurar o trabalho intelectual. E vai fazê-lo mais depressa e com mais força do que queremos admitir. A IA não vai “roubar empregos” de um dia para o outro. Vai fazê-lo em modo Jack the Ripper, por partes. Tarefas repetitivas, administrativas, previsíveis. Aquelas que todos sabemos, no íntimo, que têm pouco ou nenhum valor real. O trabalho de carimbo e tecla.
Tomem, por exemplo, uma área estruturalmente ineficiente na maioria das nossas empresas: a obrigatoriedade de contratar um TOC. Exemplo puro de um sistema arcaico(2) que confunde obrigação legal com criação de valor.
O debate público, se o houver, vai obviamente ter outra formulação. “A IA vai destruir o emprego.” É sedutora. Alimenta medo, protege corporações e permite a certos comentadores desempenhar o papel de sentinelas da humanidade. Mas omite a pergunta essencial: destruir que empregos, e por força de que incentivos? Em que ordem, e para benefício de quem? As pessoas e as instituições fazem o que os incentivos recompensam. Se o sistema recompensa a manutenção de tarefas burocráticas, essas tarefas sobrevivem mesmo quando já não fazem sentido económico. É atribuída a Milton Friedman uma frase deliciosa que explica bem este reflexo: “a capacidade........
