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Andar depressa para lado nenhum. WhatsApp e fim do silêncio

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19.01.2026

O WhatsApp entrou nas nossas vidas como um atalho para “andar mais depressa” e tornou-se, de mansinho, o sistema nervoso informal de muitos de nós. Não foi imposto: foi sendo aceite. Uma concessão de cada vez: um grupo aqui, uma resposta ali, uma notificação acolá. Ganha em velocidade, perde em tudo o que importa: atenção, critério, memória. Pelo caminho, rouba-nos o silêncio interior. Sem silêncio não há juízo. O resultado é previsível: distração constante, decisões piores e uma vida sempre ligada, por hábito, não por método.

É uma das ironias bem montadas do nosso tempo: ferramentas que prometem ordem e entregam barulho. O WhatsApp, que nasceu para combinar jantares e avisar atrasos, entretanto passou a alojar discussões, documentos, decisões e até conflitos. Cedemos uma pequena parte da nossa liberdade não por decreto, mas por inércia. Começou com “é só para coisas rápidas”, continuou com “é só este grupo”, e acabou com a vida inteira a operar num amontoado de conversas onde o essencial se mistura com o trivial, o sensível com o descartável, o trabalho com a vida privada.

E aqui está o ponto: esta vida de bolso não nos foi imposta. Foi-se normalizando, dia após dia, até deixar de se notar. Quando é que decidimos que o ecrã podia ser a nossa sala de estar, o nosso corredor, o nosso gabinete?

E quando foi que, cedendo à conversa da “exclusão social”, normalizámos entregar um smartphone a uma criança? Desculpando-nos com um “é para estar com os amigos”. Mas o que muitas vezes estamos a fazer é outra coisa: colocar uma criança numa rotina de atenção contínua, uma espécie de prisão digital, antes de ter maturidade para lhe resistir. Nós chamámos “pertencer ao grupo” ao que é, não raras vezes, um........

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