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A fraude certa para a causa certa

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13.08.2026

Não falou até aos onze anos. Não leu nem escreveu uma palavra até aos dezoito. Diagnosticado com autismo e atraso global do desenvolvimento aos três, submetido a quatro ou cinco horas diárias de terapia da fala, filho de uma super-mãe com cinco licenciaturas que se recusou a aceitar o prognóstico que lhe tinham dado. A história deste super-homem DEI, tal como Cambridge a contou ao mundo em 2023, não parava aí. Um tumor cerebral benigno, removido duas semanas antes da defesa da tese, apagou-lhe da memória o trabalho de anos, que ainda assim recuperou a tempo de defender. Trinta maratonas em trinta e cinco dias, as últimas nove já com uma fractura de stress. Trezentas milhas em três dias numa passadeira, seiscentas em seis, mais de cinco milhões de libras angariadas para instituições de caridade, poços de água em África e na América do Sul. Aos trinta e sete anos, Jason Arday tornou-se o professor negro mais jovem da história de Cambridge. Como não podia deixar de ser, a BBC contou a história. A CBS contou a história. A Good Morning America contou a história. Um editor da Simon & Schuster comprou as memórias. Faltou um programa na SIC e uma reportagem na VISÃO, mas foi, é claro, distracção. Ninguém, durante quase dois anos, sentiu necessidade de verificar nenhuma destas historietas. Afinal, um símbolo é um símbolo. E Hilary Cremin tinha canonizado Jason.

Cambridge tinha todas as ferramentas para descobrir a fraude e, durante quase dois anos, pareceu não querer usá-las. Uma universidade que ensina a citar fontes, a ser transparente com o trabalho e com a criação do saber, e a submeter cada ideia à revisão de um par que a destrua, se puder, decidiu que este caso dispensava o exercício. Talvez porque, depois de uma santificação em vida, ninguém se atrevesse a pedir provas. Nathan Cofnas, filósofo de Cambridge acusado de racismo por um artigo que citava dados internos da própria Harvard e mais tarde ilibado pela universidade das cinquenta e oito queixas de discriminação apresentadas contra ele, foi quem alertou um colega para a possibilidade de haver um plagiador e fabulista no corpo docente. As conferências do próprio Arday, nas quais desvalorizava números e dados quando contrariavam as suas teses, foram entretanto levantando dúvidas em círculos cada vez mais amplos. Cofnas não foi, portanto, o primeiro a desconfiar. Em Setembro de 2025, um jornalista do Times Higher Education tinha preparado um dossier de sessenta e três páginas com comparações de texto. Os advogados de Arday, de um escritório especializado em........

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