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A direita que vota PCP

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22.06.2026

Esta segunda-feira, em centenas de salas, milhares de jovens fazem exames nacionais a papel e caneta, vigiados para que nenhuma máquina entre. O país que protege com este zelo a pureza da prova é o mesmo que, cá fora, deixou de saber distinguir quem sabe de quem só parece. Em 1930, num livro que continua a ser lido sobretudo por quem já lhe dá razão, José Ortega y Gasset descreveu uma civilização que se tornara capaz de produzir especialistas à escala industrial e que, em troca, perdera a capacidade de os integrar. A barbárie da especialização, chamou-lhe. Foi em Espanha, onde vivi dez anos, que dei de caras com esse diagnóstico, e a surpresa que hoje me causa não foi tê-lo encontrado. Foi perceber que não envelhecera. Agravara-se. A Revolta das Massas não é um retrato do passado europeu. É a acta antecipada do nosso presente.

O que Ortega viu, e o que a abundância da nossa época torna impossível ignorar, cabe numa distinção. A inteligência artificial fabrica quase tudo. Fabrica a frase certa, o parecer fluente, a análise que roça a competência sem nunca ter passado por ela. O que ela não fabrica, e que abundância nenhuma substitui, é o juízo cultivado, a autoridade que se conquista pela prática, pela responsabilidade e pela humildade, aquilo a que Ortega ousou chamar nobreza. Todo o resto, a máquina imita agora de graça.

O personagem central de Ortega é o homem-massa. Não é o pobre, não é o operário, não é uma classe. É uma pessoa, que na altura usaria fato, hoje tanto pode dirigir uma multinacional como trabalhar de casa em calções. Define-se por uma combinação precisa, opiniões fortes e suficiência, que não substancia, absoluta. Tem certezas sobre tudo e nunca pôs nada em dúvida. Não sente que deva justificar o que pensa, porque pensar, para ele, é já ter uma opinião pronta. O mundo existe para lhe dar razão. A forma mais perigosa deste tipo, escreveu Ortega, não é o ignorante de boa fé, que ao menos sabe que o é. É o especialista. O homem que domina genuinamente um canto ínfimo do saber e que, por isso, se julga autorizado a pronunciar-se com a mesma firmeza sobre tudo o resto. Ortega deu-lhe um nome que não se esquece. Chamou-lhe o........

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