"A Parkinson ensina-nos a sorrir enquanto o corpo grita"
Aos 32 anos ouvi uma frase que mudou a minha vida: “Tem doença de Parkinson precoce.”
Naquele instante, o chão desapareceu debaixo dos meus pés. Parkinson era, para mim, como enfermeira, uma doença neurodegenerativa crónica, associada a tremores, rigidez com progressão para a dependência nos autocuidados. Não imaginava que pudesse atingir alguém ainda jovem, com filhos, responsabilidades, sonhos e uma vida inteira pela frente.
Hoje tenho 45 anos e vivo há 14 com este diagnóstico. Mas aquilo que eu entendia sobre Parkinson no início era apenas uma pequena parte da realidade. A doença não é apenas o tremor visível que as pessoas reconhecem. É muito mais profunda, silenciosa e cruel. É uma doença que invade o corpo aos poucos, roubando movimentos, espontaneidade, autonomia, alterações não motoras — que já se manifestavam, embora em grau menor, antes do diagnóstico (ansiedade e insónias) — e socialmente uma tendência para a perda da própria identidade.
No meu caso, a dor tornou-se uma das manifestações mais devastadoras. Uma dor intensa, persistente, incapacitante, localizada sobretudo na perna direita. Não era uma dor “normal”. Era uma dor acompanhada de rigidez extrema, como se os músculos estivessem permanentemente contraídos, presos, incapazes de relaxar. Uma dor que me obrigava a parar, a chorar em silêncio, a desistir de coisas simples que antes fazia sem pensar.
Para tentar sobreviver a essa dor, o meu corpo começou a adaptar-se sozinho. Adotei um padrão de marcha completamente desadequado. Caminhava numa........
