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Deixem as pessoas morrer em paz!

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01.07.2026

Houve um óbito na unidade onde trabalho.

Quem lê esta frase poderá pensar: e então? Afinal, sou médica há muitos anos.  Verifiquei e certifiquei inúmeros óbitos ao longo da minha vida profissional. O que  tem este de especial?

A verdade é que cada morte é especial. Não porque a morte seja extraordinária — é a única certeza que todos temos — mas porque a vida que termina é sempre  única. Cada luz que se apaga ilumina-nos de forma diferente.

Costumo dizer que no dia em que um óbito deixar de me sensibilizar será o dia de  arrumar o estetoscópio e procurar outra profissão. Sobretudo quando  acompanhamos alguém durante meses ou anos. Não é possível assistir ao  percurso de uma pessoa, conhecer-lhe os medos, as fragilidades, os afetos e  depois permanecer completamente indiferente ao seu desaparecimento.

Recordo muitas mortes. Mas a primeira ficou gravada para sempre.

Era jovem médica, de urgência, numa daquelas madrugadas em que os  corredores dos hospitais parecem mais escuros e silenciosos do que o habitual.  Chamaram-me para verificar e certificar um óbito num dos pisos. Quando cheguei  ao quarto, deparei-me com uma mulher exatamente da minha idade: 27 anos.

Ainda hoje lembro-me da sensação física. O coração acelerou........

© Observador