Deixem as pessoas morrer em paz!
Houve um óbito na unidade onde trabalho.
Quem lê esta frase poderá pensar: e então? Afinal, sou médica há muitos anos. Verifiquei e certifiquei inúmeros óbitos ao longo da minha vida profissional. O que tem este de especial?
A verdade é que cada morte é especial. Não porque a morte seja extraordinária — é a única certeza que todos temos — mas porque a vida que termina é sempre única. Cada luz que se apaga ilumina-nos de forma diferente.
Costumo dizer que no dia em que um óbito deixar de me sensibilizar será o dia de arrumar o estetoscópio e procurar outra profissão. Sobretudo quando acompanhamos alguém durante meses ou anos. Não é possível assistir ao percurso de uma pessoa, conhecer-lhe os medos, as fragilidades, os afetos e depois permanecer completamente indiferente ao seu desaparecimento.
Recordo muitas mortes. Mas a primeira ficou gravada para sempre.
Era jovem médica, de urgência, numa daquelas madrugadas em que os corredores dos hospitais parecem mais escuros e silenciosos do que o habitual. Chamaram-me para verificar e certificar um óbito num dos pisos. Quando cheguei ao quarto, deparei-me com uma mulher exatamente da minha idade: 27 anos.
Ainda hoje lembro-me da sensação física. O coração acelerou........
