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A anti‑tempestade que falta à desinformação

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14.02.2026

Sente‑se um clima estranho em Portugal. E não falo de meteorologia: falo de clima político.

Os ventos do populismo invadiram o mundo, muito por culpa do cansaço provocado pelo incumprimento reiterado por parte dos partidos associados aos regimes democráticos, que subestimaram em parte a vivência dos eleitores, eleitores esses que se vão tornando cada vez mais exigentes, também fruto do amadurecimento das democracias consolidadas.

O comboio de tempestades que assola a política portuguesa levou muitos cidadãos a querer olhar para o momento político como forma de encontrar um porto seguro, um anticiclone que permita uma bonança a que quase poderíamos dar nome, como se faz com as tempestades; neste caso, uma anti‑tempestade chamada Luís, personificação da esperança de muitos num líder que traga estabilidade ao sistema.

Mas esses ventos trouxeram também a desinformação.

Para que essa bonança consiga abranger verdadeiramente todos, é preciso reconstruir uma sociedade que não se limite a consumir o que aparece no ecrã, que procure fontes, que questione o que vê nas redes sociais em vez de apenas fazer “scroll” e seguir viagem.

Não se trata, como oiço repetidamente, de um ataque à democracia, mas sim de um caminho de empobrecimento do sentido crítico, substituído por uma crítica fácil, pouco informada e muitas vezes assente na falta de verdade.

O grande desafio será, por certo, fazer com que muitas pessoas, cansadas do sistema, compreendam a forma como são usadas sem se aperceberem disso.

Uma mentira repetida muitas vezes torna‑se uma verdade absoluta para muitos, e dificilmente se consegue convencer alguém que a aceitou como verdadeira de que afinal não o é. E, quando a verdade é finalmente revelada, raramente tem o alcance necessário para chegar aos mesmos que viram a mentira; o algoritmo não acompanha a procura da verdade.

Quando o espaço público é colonizado pela mentira e pelo cansaço, a indignação já não chega.

Perante este cenário, o combate à desinformação não se faz apenas com indignação moral, mas com políticas públicas consistentes. Um eixo central passa pela literacia mediática: integrar, de forma efetiva, a análise crítica da informação nos currículos escolares, formar professores e apoiar projetos que ajudem jovens e adultos a ler notícias, distinguir fontes credíveis e reconhecer manipulações. Outro eixo é a responsabilização das grandes plataformas digitais, que já na União Europeia começam a ser chamadas a responder por conteúdos ilegais, maior transparência nos algoritmos e mecanismos de desmonetização de quem lucra com a mentira. Finalmente, importa reforçar o papel das entidades reguladoras e dos media de serviço público, dotando‑os de meios para monitorizar campanhas de desinformação e garantir o direito dos cidadãos a uma informação plural, rigorosa e verificável.

Neste contexto, urge legislar em Portugal, não apenas para defender a democracia em abstrato, mas para proteger os portugueses desta arma política que é o uso sistemático da desinformação, articulando melhor os mecanismos legais já existentes com estratégias eficazes de combate às narrativas falsas.

Nunca é tarde para informar, auxiliar e lutar pelo pensamento dos portugueses, libertando‑os para um pensamento livre e crítico que tanto nos caracterizou ao longo dos séculos.

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