A sociedade que odeia crianças
Vivemos numa sociedade que não se limita a ter menos filhos. Aprendeu também a falar deles como se fossem, antes de tudo, um problema. Não é preciso procurar muito. Está nas conversas, nas séries e filmes, nos artigos dos jornais, nas redes sociais, na forma como a maternidade e a paternidade são apresentadas quase sempre a partir daquilo que obrigam a perder: tempo, dinheiro, liberdade, corpo, sono, carreira, viagens, espontaneidade.
Os filhos aparecem cada vez menos como uma continuação natural da vida e cada vez mais como uma espécie de imposto pessoal sobre tudo aquilo que aprendemos a considerar importante.
Entre pessoas da minha geração, isto tornou-se particularmente evidente. Quando alguém fala em ter filhos, a conversa rapidamente se transforma num exercício de gestão de danos. Quanto vai custar? Vais conseguir continuar a viajar? O que acontece à tua vida social? E, no caso das mulheres, surge quase imediatamente a pergunta que parece hoje sobrepor-se a todas as outras: e a carreira?
A carreira tornou-se uma espécie de ídolo sagrado. Continua a ser apresentada como um meio de realização, mas muitas vezes é tratada como um fim em si mesmo, quase como uma obrigação moral. Uma mulher que abranda profissionalmente para cuidar de um filho é facilmente descrita como alguém que “abdicou de si própria”. Uma mulher que abdica de ter filhos para proteger a carreira é apresentada como alguém que escolheu a liberdade.
Até a linguagem denuncia esta mudança. “Childless” era uma descrição: não ter filhos. “Childfree” é uma declaração de libertação. O sufixo importa. Somos debt-free, smoke-free, cancer-free. Ficamos “free” de coisas que nos limitam, prejudicam ou das quais queremos escapar. A expressão pode parecer inofensiva, mas........
