Viva a Filosofia! Mas o que é isso?
Celebramos hoje o dia da Filosofia, a qual dá ares de ser apenas mais uma celebração entre tantas outras. Do dia da mãe ao dia do trabalhador, o dia da Filosofia parece só mais uma celebração inócua. Há, porém, uma pequena coisa que esta celebração traz de diferente e não é coisa pequena. Pouca gente sabe o que é a Filosofia. Trago ao meu leitor dois relatos verídicos que ilustram o problema. Quando eu estava no meu 9° ano, perguntei à minha prima, um ano mais velha, o que era a Filosofia. Ela processou a pergunta por alguns instantes e respondeu: “É tipo História.” O segundo relato, bem mais recente, deu-se quando a mesma pergunta foi feita por uma criança ao meu irmão. Após tentar evadir a questão e o rapaz insistir, o meu irmão foi capaz de dizer que tem a ver com “aprender a pensar e assim.” Vale a pena dizer que o meu irmão, à data, era aluno do primeiro ano da licenciatura em Filosofia.
Vê-se assim como difere a celebração do dia de hoje. Este artigo procurará esclarecer (ainda que pouco) o que é a Filosofia.
O problema da Filosofia
Se os alunos não nos sabem dar uma resposta satisfatória, passemos aos manuais. Eis o núcleo da resposta mais comum: a Filosofia é a arte de pensar bem. A ideia central é que, enquanto as restantes disciplinas têm um objecto de estudo delimitado, a Filosofia estuda todas as coisas, não se confundindo com a ciência em geral por uma diferença de método: as ciências se focam no estudo empírico, mensurável e quantificável, mas a Filosofia, diz-nos um destes manuais
baseia-se no exercício reflexivo e crítico, na investigação e problematização dos conceitos e na argumentação racional.
baseia-se no exercício reflexivo e crítico, na investigação e problematização dos conceitos e na argumentação racional.
Talvez ciente de que tudo isto não diz nada, o manual acrescenta:
A Filosofia não é, portanto, uma disciplina empírica, é antes conceptual e a priori.
A Filosofia não é, portanto, uma disciplina empírica, é antes conceptual e a priori.
Temos aqui já vários problemas. Um não de menos é o manual dizer “portanto”, quando dificilmente do que vem antes se seguir o que vem depois. Consciente ou não, ao dizer que a Filosofia não é empírica, mas a priori, o manual excluiu toda a filosofia de Aristóteles e parte da filosofia de Platão, o que implica também apagar da história virtualmente toda a Filosofia Medieval, para não falar, claro, dos famosos filósofos empiristas (Locke, Hume e o resto da família), positivistas lógicos (Ayer, Russell, et al.), fenomenólogos e a maioria dos filósofos analíticos.
Porém, por muito má que pareça a situação, a verdade é que pode chegar a pior. E chega. É-nos dito nestes manuais que a Filosofia coloca questões mais fundamentais do que as várias ciências. E muito bem. Os filósofos perguntam-se coisas como “O que é uma vida plena?”, “Qual a melhor forma de governar uma sociedade?”, “O que é a beleza?”, “Porque existe algo em vez de nada?”, “Como podemos ter a certeza seja do que for?”, etc. O problema é........
