As décadas da violência contra os professores
Dos bem mais de 100.000 professores portugueses, cerca de 6.000 solicitaram baixa médica no início do ano letivo. Se fosse fidedigna a correlação entre a referida proteção social e o sofrimento psíquico e físico dos professores, a cifra ascenderia a 60.000. Em tempos de salas de aula moldadas para violentar a integridade psíquica dos seres humanos, o tipo de sociedades que vão criando impõem-nos um duplo regresso: às origens da tradição civilizacional do Ocidente e, no extremo oposto, às décadas de 1970-1980, o início da rotura com essa tradição imposta pela mais nefasta reforma do ensino. Daí em diante, mergulhámos na era inédita de subversão mental forçada dos povos do mundo ocidental.
1 Platão: as origens da razão humana
Por volta do século XIII a.C., a fé foi revelada do céu para a terra no Próximo Oriente (entre a Suméria, Egito e Israel), através da Bíblia e de Jesus Cristo, que ensinou a oração: Pai-nosso-que-estais-no-céu. Da terra para o céu, em sentido inverso e num território distante, na sua Hélade, a partir dos séculos IX-VIII a.C., os gregos elevaram a razão humana do estádio das operações concretas (a pulsão mental dos virados para o chão) ao estádio filosófico da razão inteligível, abstrata, conceptual, universal, fundadora da ciência (a pulsão dos que contemplam o cosmos). No século IV a.C., Platão acabou por ser o expoente perpetuador desta tradição, cujo legado maior é «A Alegoria da Caverna», ideal eterno da construção da razão humana que atribuiu ao seu mestre, Sócrates. Todavia, só muito depois, no século XX, a genialidade grega foi revertida de forma ímpar num único livro, «Paideia: a formação do homem grego», de Werner Jaeger (1936), o equivalente à bíblia do momento fundador da razão humana.
Sem descontinuidades em bem mais de dois milénios, a fé (de Jerusalém) e a razão (de Atenas) nunca perderam as identidades trazidas do berço que as distinguem, mesmo após o poder do Império Romano (entre os séculos I a.C. a V d.C.) as ter congregado («casado») e projetado para a eternidade (a partir de Roma). É com a identidade com a qual nasceram que a fé e a razão vão atravessando mais um século, o século XXI, rumo a milénios vindouros. Fazem-no como dois carris da linha de caminho-de-ferro do correr do tempo, cada qual no seu trilho, sem se cruzarem, mas condicionando-se mutuamente. Assim se tem construído o mais digno, complexo e notável humanismo de sempre na face da Terra: o do mundo ocidental.
Por se terem institucionalizado desde a origem, ambas penetraram no pensamento e práticas do quotidiano habitual, isto é, sedimentaram-se no inconsciente milenar e no consciente (atual) dos povos. A fé institucionalizou-se na igreja, através da missão social dos padres (neste texto sinónimos dos pastores de tradição protestante) e, por seu lado, a razão institucionalizou-se na universidade/escola, através da missão social dos professores (ou mestres, educadores, preceptores, pedagogos, docentes).
Autonomizam-se por outro detalhe. A primeira, a fé, teve impacto social massificado desde inícios da idade média (séculos V-XV) enquanto a última, a razão, manteve um poder social periférico até à massificação da escolarização, que ocorreu apenas no século XX. Daí que o sentimento de caos que hoje vivemos no mundo ocidental resultar da transição civilizacional em curso do «milénio dos padres» (passado) para o «milénio dos professores» (presente e futuro).
2 O professor venceu o padre: terá essa consciência?
No século XVIII, os pensadores iluministas lançaram uma nova semente civilizacional fértil: o princípio da autonomia institucional, que incluiu a separação cartesiana entre fé (a soberania da igreja ficou restringida a este domínio) e a razão (a universidade/escola conquistaram o poder soberano neste domínio). Estava aberto o caminho para a explosão científica do século XIX, contexto que gerou a transição progressiva do poder social massificado dos padres (igreja) para o atual poder social massificado dos professores (escola). Em meados do século XX, no lugar das antigas........
