Atoleiros, a primeira vitória de D. Nuno Álvares Pereira
Paramos hoje aqui. Neste mesmo chão. Há 642 anos. Imaginem.
Era 6 de abril de 1384. O sol nascia sobre o Alentejo. Um homem jovem, de pouco mais de vinte anos, ajoelhava-se e beijava o solo. E depois, de espada na mão, enfrentava um gigante. Mas para entendermos este momento — este instante em que Portugal quase morreu e renasceu — temos de recuar. Recuar a um tempo de trevas, e conturbado.
O declínio do reino de Portugal com D. Fernando e D. Leonor Teles
Em 1367, subiu ao trono D. Fernando. O reino, à data da sua coroação, ainda respirava. Mas D. Fernando envolveu-se em guerras. Guerras perdidas com Castela. Três guerras. Três fracassos.
Deixou-se influenciar pela rainha, D. Leonor Teles, e pelos seus favoritos. E o País afundou. O tesouro régio esvaziou-se. A moeda desvalorizou. Os preços subiram. A fome entrou pelas portas das vilas. E depois veio a peste. O povo sofria.
Quando D. Fernando morreu, em 22 de outubro de 1383, não deixou herdeiro varão. Deixou apenas uma filha: D. Beatriz. E deixou um tratado. O Tratado de Salvaterra de Magos, assinado em abril desse ano. O que dizia esse tratado?
Dizia que D. Beatriz casaria com D. Juan I de Castela. Dizia que, após a morte de D. Fernando, D. Leonor Teles seria regente até nascer um filho varão. E dizia que, quando esse filho completasse 14 anos, a Coroa de Portugal passaria para os descendentes do rei de Castela. A capital do Reino mudar-se-ia para Toledo.
Toledo! Não Lisboa. Não Coimbra. Toledo. Portugal deixaria de ser Portugal. Seria uma província. Um apêndice. A nobreza que apoiava D. Leonor via nisto a sua salvação. Mas o povo? O povo não. O povo murmurava.
Quando D. Leonor mandou apregoar pelas cidades — “Arraial, arraial, pela rainha D. Beatriz, nossa senhora!” — as gentes de Lisboa, Santarém, Elvas responderam com silêncio hostil. Não queriam. Não queriam um rei estrangeiro. Não queriam perder a liberdade.
O Conde Andeiro e o Mestre de Aviz
Nessa corte podre, havia um homem, um conde. O segundo conde de Ourém. Chamava-se João Fernandes Andeiro. Era galego. Fora o valido de D. Fernando. Diziam que era amante da rainha. Era hábil. Manobrava interesses. Tinha mãos de seda e dentes de lobo.
Mas havia outro homem. Um homem que não aceitava a submissão. Chamava-se D. João, Mestre da Ordem de Avis. Era filho bastardo de D. Pedro I. Meio-irmão de D. Fernando. Durante algum tempo hesitou.
Até que, no dia 6 de dezembro de 1383, entrou nos Paços da Rainha. E matou o Conde Andeiro. Com a sua própria mão.
A notícia correu como fogo em palha seca. Lisboa amotinou-se. O povo tomou as ruas. E proclamou o Mestre de Avis como “Regedor e Defensor do Reino”. Ouviram bem: foi o povo que o fez. Não os grandes senhores. O povo. Nas noites de dezembro, à luz de archotes, homens simples gritaram o nome de D. João. Porque sabiam que ele era a única barreira contra Castela.
Porque é que o povo aderiu?........
